Quarta-feira, 08 de Setembro de 2010  
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Fábio Régio Bento  
Contraponto
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Este colunista escreve aos fins de semana.
 
Em defesa da farofa e do Doggy Bag
C hegou a farinha amazonense que encomendei. Amarela. Ouro comestível. Sabor incomparável. Farinha de Maués, cidade que, para quem não soubesse, está a um dia de viagem de barco de Manaus. Maués é a cidade do guaraná, com suas frutas de olhos de índias. Cada região com a sua riqueza. A carne do sul é boa, mas a farinha do norte é muito melhor. Por lá, vive, também, com seu sabor inigualável, Madame Tambaqui, lindas costelas coloridas de laranja pelas brasas.

Faço farofa apenas com óleo de oliva e sal fino. Não gosto daquelas farofas cheias de ingredientes não identificados. A farofa feita com farinha do norte é tão boa que basta o seu sabor. É como a carne boa, que não pede temperos, apenas sal e fogo. Farofa amarela, crocante, saborosa, combina com tudo. Boa e bonita. Enfeita o prato, branco. Prato colorido confunde a vista. Prato tem que ser branco, tela do quadro, gastronomia é pintura, comestível, fumegante, arte que alimenta os olhos, o corpo e a alma.

Sou farofeiro no duplo sentido da palavra. Amo farofa e amo aquele comportamento que alguns brasileiros que se consideram chiques abominam: levar comida de casa. Quando viajamos e conseguimos tempo para organizar o lanche, preparamos sempre uns pãezinhos recheados com presunto e queijo. Preferencialmente, presunto cru e queijo em lascas grossas (não gosto de queijo fatiado, prefiro o sistema Jerry, do inoxidável cartoon). Certa vez, viajando de Santana do Livramento para Pelotas, paramos na praça central de Pinheiro Machado, abrimos nossa sacola do fiambre e saboreamos nosso lanche caseiro, entre copos de água e suco de vinho. Farofeiros inveterados! Recolhemos o lixo. Na praça, ficaram apenas os farelos, que foram logo varridos pelos pássaros.

Por onde viajamos, costumamos praticar o farofismo. Já é uma tradição. Na Itália, em vez de pagar caro por um sanduíche pronto, costumamos comprar o necessário no supermercado e preparar os lanches antes de viajar. É mais saboroso, barato e divertido. Até o vinho em garrafinha costumo carregar para o lanche, exceto quando dirijo. “Apologia à farofa é crime!”, esbraveja o brasileiro chique.
Outro costume que atrai negativas com a cabeça é pedir para embrulhar a sobra do restaurante para levar para casa. Inicialmente, eu dizia que era para o cachorro (mas era para mim). Depois, botei a culpa na babá, que estaria em casa faminta.

Agora, perdi de vez a vergonha: “Garçom, enrola a boia sobrada que vou comer depois”. Caso você fique com vergonha, use o idioma do Jerry para amenizar o impacto: “Garçom, a conta e o Doggy Bag”, que significa embrulhar a comida sobrada e levar para comer em casa. Uma pesquisa revelou que o Doggy Bag está em alta. É o farofismo que avança.
 
 
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Este colunista escreve aos fins de semana.
   
 

08/09/2010
 
 
 
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