Quarta-feira, 08 de Setembro de 2010  
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Léo Rosa de Andrade  
Imperfeições
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Este colunista escreve todas as segundas-feiras.
 
Compostura moral
Há um conto de Leon Tolstoi, russo, séc. XIX. É dele, se o tempo não me engana, essa história: no baile, o moço percebeu a moça, que era linda, cheia de graça e demonstrava sensibilidade e inteligência. Notou que ela se dava carinhosamente com o pai. Entre eles havia cumplicidade e respeito. Ficou encantado quando os viu dançando e admirou relação tão afetuosa. Sentiu mesmo certa invídia, ao menos, muito desejo de ter algo assim que fosse seu. Admirou-a a distância e foi tomado de envolvente paixão. Passou-se a festa e o moço não foi dormir. Não queria dormir. Preferiu andar pela noite, sonhando acordado o sonho do que seria o resto da sua vida, imaginando vivê-la apaixonado pela bela mulher que a boa sorte lhe apresentou. Sentia-se arrebatado. Existia quem merecesse a sua ternura, a dedicação de seus planos e do que o futuro viesse a ser.

Náuseas e maldições
O amanhecer, que o moço queria que nunca chegasse, surpreendeu e causou desgosto no sonhador. As coisas do dia se intrometeram nos seus devaneios da forma mais bruta que poderia acontecer. Escravos eram conduzidos aos açoites, com brutalidade e escárnio. Quem manejava o látego externava um doentio prazer. A brutalidade dolorida e revoltante era cometida pelo pai da moça do baile. O moço foi-se tomando de desprezo, sentiu náusea ao pensar na moça. Desprezou-a e amaldiçoou o próprio amor.

Sozinho, mas com dignidade
Um conto meu. Mesa de restaurante. Amigos, amigos dos amigos, gente culta, boas conversas. Noite agradável, dessas em tudo oferece prazer. Um professor universitário, autoridade local, põe-se a fazer graça nada comum ao gosto dos comensais. Mas o mundo não tem que ser exatamente do jeito que a gente quer. Algo desagradável, mas dava para passar. Aí, meio sem mais, piadas racistas. Olhares chocados, sorrisos morrendo nos lábios. Algumas risadas estridentes, pois nunca falta a lisonja das personalidades baratas. Alguém enrubesceu. Desconforto, de qualquer forma, havia que sair dali. Em silêncio? Com protesto? Protestou. Deixou seu asco, constrangeu a todos, negou a cada um o pretexto de não ter entendido aquele tosco. Quem ficasse ficaria sabendo que estava congraçando com um preconceituoso. Saiu sozinho, sentindo a própria dignidade, altivo e seguro de estar construindo civilização.

Ética em um mundo menos moral
Há um pedido geral por civilização. Reclama-se ética. O mundo estaria menos moral. Constam registros, nos livros dos sábios que anotam as grandes queixas das pessoas honestas, de que há muito tempo solicitam-se esses valores. Mas consta, também, que, quase sempre, o queixume é, tão-só, formalidade. O comportamento propriamente dito acaba dando licença para coisas lamentáveis. A moça do baile, sensível que era, inteligente como demonstrava ser, como poderia dar-se bem com o pai que tinha? Ou traía a si, ou não era melhor do que o condutor de escravos. A gente educada que ficou na mesa, que não disse nada, o que será que essa gente diz em casa? Como essa gente educa os filhos? Como essa gente vota?

As soluções são coletivas
Eu estou convencido de que não há solução individual para o mundo. O voluntarismo personalista não vai arrumar as coisas. O processo civilizatório é geral, abrange grandes questões sociais, recondução das relações econômicas, outros modos de explorar o planeta. A opção civilizatória é uma opção coletiva e política. Mas isso não justifica tudo. Não é licença para maniqueísmo, todavia tem coisa que está errada mesmo, e qualquer um tem condições de perceber. Mas pouca gente se dispõe ao gesto. A ninguém há que se pedir para salvar a pátria. Cada qual, contudo, poderia erguer a voz até a esquina, por a mão nas coisas ao redor; poderia, de vez em quando, não dançar tão direitinho conforme a música; poderia, vez que outra, recusar o prato feito. Compostura diante da existência. Não tem coisa que faça bem melhor.
 
 
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Este colunista escreve todas as segundas-feiras.
   
 

08/09/2010
 
 
 
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