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Brasilidade - O que significa ser brasileiro?

Fábio Régio Bento -

28 de Outubro de 2011 às 23:11min

Fábio Régio Bento

 

Em julho de 1987, 24 anos de idade, na Suíça, com estudantes suíços, alemães, italianos, holandeses, descobri de forma mais significativa minha nacionalidade, brasilidade. Um evento internacional, “global”, pela força do contraste, tem o poder de afirmar a identidade local, regional, nacional.
 
“Io sono Fábio, vengo dal Brasile, sud del Brasile”, apresentava-me. Sul do Brasil. Brasil, do Sul.
 
De volta ao Brasil, em agosto de 1988, senti vergonha por conhecer a Itália, Portugal, Suíça, e não conhecer o Brasil do Norte e Nordeste. Meu desconhecido Brasil brasileiro. Em dezembro do mesmo ano, com um amigo, subimos para o nordeste de ônibus e carona de caminhão. Fantástica viagem de um gaúcho brasileiro descobrindo sua terra. Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará. Um país enorme, contraditório e belo. Gostei do que vi, gostei, sobretudo, do que senti. Por meio dos fatos descobrimos sentimentos. A supremacia é dos sentimentos, mas eles se manifestam nos fatos.
 
Depois dessa viagem tornei-me mais brasileiro, e gaúcho, pois é o nosso próprio país que nos torna regionais, e nacionais: “Te apresento o meu amigo gaúcho”, diziam os novos amigos do Nordeste e do Norte. “Esse é o Fábio, lá do sul, que veio nos visitar”. Em minha opinião, nossas questões regionais, no Brasil, em geral estão bem resolvidas. Os do Norte, do Centro, do Nordeste, Sudeste e Sul, diferentes, mas com o mesmo sentimento de pertença nacional. O mesmo idioma, com suas diferenças regionais. A brasilidade existe, mas é difícil explicá-la.
 
Brasileiros... O que significa ser brasileiro? Em 1990 voltei a viver na Itália, por mais sete anos. De longe, entende-se melhor o que está perto. Brasil significa espaços largos, território grande e variado. Cresci nos horizontes largos do pampa. Ficava com claustrofobia geográfica na Itália, Bel Paese, do avô da minha mãe, mas com território bem menor que o nosso. Saí do Brasil irritado com os que votaram no Collor. Optei pelo autoexílio. Depois, com o impeachment, minhas relações com o Brasil ficaram melhores. O Plano Real também ajudou. Uma moeda estável. Finalmente! Moeda e nacionalidade. Moeda não é só dinheiro.
 
Quando voltava ao Brasil, já mesmo em Guarulhos, ali onde tem um belo trechinho de Mata Atlântica, no aeroporto, enchia os pulmões com o cheiro do meu país. Saudades do cheiro de mata do Brasil, aquecida pelo sol. As árvores do Brasil, suas florestas são um dos pontos mais fortes em meu sentimento de brasilidade. Uma mesma floresta, mesma mata, e várias árvores, diferentes, Floresta Amazônica, Pampa, Mata Atlântica. Floresta Brasil, um país unido em sua diversidade regional.
 
Brasileiro, gaúcho, sul-americano... A experiência mais forte, para mim, na descoberta de minha brasilidade foi conhecer Manaus e outras partes do Estado do Amazonas, conhecer a Floresta Amazônica, de barco até Maués. Difícil de explicar.
 
Fiquei diferente depois de minha primeira viagem de barco de Manaus a Maués. Os rios da Amazônia, os cheiros, os sons, as imagens, os sabores, as contradições... O mercado público de Manaus... O povo brasileiro de lá... Amaram-me... Amei-os... Brasileiro, gaúcho, “nosso amigo do Sul”, diziam. Certíssimo! Amazonas, terra de contrastes e soluções. Eu gosto de frio. Lá, o calor é de derreter, mas o que aconteceu foi que me derreti por aquela parte do nosso Brasil. Vai ver fui conquistado pelo encanto de Cereçaporanga... Olhos de Guaraná, perfume de Cupuaçu, sabor de Tambaqui, beleza cor de cuia que desfila naturalmente pelas ruas das cidades e pelas trilhas da floresta. O que significa ser brasileiro? Ainda vou descobrir... Enquanto isso, degusto o sabor de ser o que sei que de fato se é, mesmo se ainda não sei bem o que seja.

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