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Eloá na caixa de leite

22 de Fevereiro de 2012 às 01:58min

A sociedade, a convivência humana tem evoluído. Muito e em aceleração, ao meu modo de ver. Não tenho nenhum pendor para Pangloss (Voltaire) ou Poliana (E. Porter). Acho tolo brincar de Jogo do Contente quando se trata da vida real. Nesse aspecto, prefiro as crônicas de A vida como ela é (Nelson Rodrigues) ou mesmo os relatórios do Banco Mundial. Não diria, pois, que a situação do mundo está resolvida. Antes, proclamo que a organização atual das formas de coexistir é injusta e deve ser superada. À luta, pois, os que desejamos um mundo melhor.

De toda forma, para fazer as contas da saga da humanidade, necessito mais do que considerar os contentamentos ou aflições do meu ontem ou do meu derredor. Reflito sobre isso sopesando a história. Aí, não obstante as tantas iniquidades da ordem vigente, não posso fazer de conta que não sei, dentre outros progressos na cultura, que se combate o tráfico de pessoas, que a igreja católica já não consegue queimar pessoas vivas por questões de crença, nem que o homem foi destituído do status de pater familias, com poder legal sobre a mulher.

Todavia, restos de valores vencidos continuam habitando as mentalidades e produzindo danosos efeitos sociais. Como se tratam de valores culturais, eles vêm com o selo de respeitabilidade que se costuma atribuir à tradição. A tradição os reelabora e os retransmite não como o que são – uma produção histórica –, mas como se compusessem a natureza das coisas. Dizendo de outro modo, certos costumes permanecem como se fossem naturais, não se os vendo como resultado de relações de poder.

Ora, crenças, concepções de vida, etc, de um grupo social ou de uma época traduzem uma situação histórica e, assim, são mantidas por interesses concretos, usando-se, para tanto, inúmeros meios, ainda que não se os perceba com facilidade. Mas, sem ilusão, quem dita regras e induz comportamentos sociais submete o geral da população a um conjunto de concepções valoradas, fazendo-as crer que tais concepções são não apenas válidas, mas as mais apropriadas, a verdade que se deve cumprir, defender, reproduzir.

Quero dizer que já não se obrigam pessoas. Pessoas são persuadidas. Então, para traficar pessoas, não se as acorrenta, oferece-lhes emprego vantajoso algures; para obter rebanhos de crentes as instituições religiosas compram rádio e televisão; para se manter um sistema de família com um mínimo de patriarcalismo valorizam-se condições de dominação fundadas em amor romântico, controle por ciúme, monogamia, etc. As duas primeiras questões percebem-se desde logo. Quanto a essa última, é difícil de aceitar os danos devastadores que vem causando.

Pois bem, então vamos lá. Há dados terríveis sobre isso no mundo inteiro, mas fiquemos no nosso Brasil. Aqui, homens em estado de exaltação amorosa matam, por dia, sete mulheres. Somem-se a isso casos de agressão sem morte (cinco espancamentos a cada dois minutos, dados de 2010) e violências não denunciadas e obtém-se uma cifra assustadora. Será que esse modo de amar não deve ser superado? Alguns poucos creem que sim, mas a maioria das pessoas não está disposta a tanto, pensa que isso é assim porque “é assim que é”.

Julga-se Lindemberg Fernandes Alves. Ele desvairou-se dos modos aceitos de controlar a “sua” mulher, Eloá Cristina Pimentel. Espezinhou-a em público e arrastou cruelmente o assassinato. Deve se dar mal. Casos assim exorbitantes são desde logo recusados, então se repetem pouco. Preocupa-me mais a inoculação dissimulada do machismo por novelas, canções, juras de casamento, aulas de religião e... caixas de leite. A caixa de leite Ades traz a foto de um homem sentado, portando um jornal. Uma mulher, em pé, serve-o. Pense comigo, a que comportamento isso instiga?

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