Notisul - O Brasil todo acompanha situação difícil pela qual passa o norte catarinense no momento. O que diferencia a nossa região do norte?
Tancredo - A bacia hidrográfica deles é maior. A nossa, do mar até a serra, em linha reta, tem uns 90 quilômetros. A bacia do norte é maior, assim como os afluentes. A mesma intensidade pluviométrica no sul e no norte tem efeitos diferentes. A repercussão lá é mais intensa. Claro que também nos preocupamos com a nossa região. Se em seis horas tivermos uma precipitação na faixa de 80 milímetros d’água em toda a nossa calha, ocorre uma série de circunstâncias. Aumenta o nível do nosso rio em 4,5 metros. Com esse volume, nós temos água na Madre e no Bom Pastor.
Notisul - Como é hoje o preparo da Defesa Civil para enfrentar uma situação difícil?
Tancredo - No norte, o preparo é um pouco diferente. Eles têm um sistema de monitoramento eletrônico feito por estações hidrometeorológicas, na extensão da bacia. Com esse acompanhamento, é possível fazer uma previsão. Na região, nosso acompanhamento é feito pelo histórico da bacia, pela experiência que tivemos durante todo esse período. Mas nós trabalhamos nessa direção de uma estação hidrometeorológica. A Alcoa já depositou o dinheiro para implantarmos a primeira estação, próximo à estação de captação das Águas de Tubarão. Com essa estação, nós teremos uma informação completa, digitalizada, com acompanhamento em tempo real. Nós pretendemos colocar uma estação em cada uma das cinco microbacias do Rio Tubarão.
Notisul - O que poderá ser feito com estas estações?
Tancredo - As estações medirão o volume do nível do rio, a densidade pluviométrica, a temperatura e a velocidade do rio. Esses quatro itens são suficientes para termos um acompanhamento, não apenas para a questão de Defesa Civil, como também agricultura, para o abastecimento de água, para a realização de estudos pela Unisul.
Notisul - Como está a questão do desenvolvimento do Plano de Contingência?
Tancredo - O plano de contingência engloba três questões: uma é o mapeamento de áreas de risco; distribuição pela cidade de dez núcleos - esta etapa já está pronta, falta apenas a implantação; e o trabalho de campo para a coleta de informações. Dentro de cada núcleo, são coletadas informações, como os locais onde serão abrigadas as pessoas. Para esta etapa, nós aproveitamos o mapeamento do cadastro técnico do município. Nós precisávamos saber o que é perímetro urbano e o que não é. Também levantar informações sobre as edificações, como quantidade, imóveis comerciais, residenciais, industriais. Num segundo momento, nós temos um acompanhamento do setor de planejamento da prefeitura. Dividimos a cidade em dez setores. Coletamos informações dos prédios públicos, que podem ser utilizados. Dentro destes dez núcleos, existe o mapeamento das áreas de risco. Nós temos um Conselho de Defesa Civil, criaremos dez micro-conselhos. No nosso entendimento, como o rio corta a cidade, se acontecer alguma coisa, você não vai poder trabalhar do outro lado. Precisamos organizar as comunidades, para que elas possam fazer as atividades na questão do socorro, do atendimento e da prevenção.
Notisul - Nestes núcleos, será feito um trabalho diferente para cada comunidade?
Tancredo - Nas áreas mais baixas, trabalharemos com a comunidade as questões de alagamento e transbordamento. Nas partes mais altas, trabalharemos com deslizamento, vendaval, descargas elétricas. Existem outros pontos que precisamos estar atentos na nossa cidade. Como a questão da BR-101, que corta o município, e uma rede de gás, que passa por baixo da cidade. Em Tubarão, há uma característica de que o nosso subsolo é turvo, é um terreno frágil. Essa rede tem que ser monitorada. Temos uma malha de rede ferroviária. Nós também temos uma rede hidrográfica, que são alguns afluentes do rio que passam pela cidade. Antes, não tínhamos nada disso. A equipe é pequena, não temos tantos recursos. Mas pretendemos sempre trabalhar dentro das condições que temos. O prefeito Manoel Bertoncini (PSDB) e o vice-prefeito Luiz Felippe Collaço apoiaram a vinda da Defesa Civil para o dia-a-dia em 2009. De lá para cá, é uma outra realidade. Nós temos nove funcionários de carreira. Não são comissionados, com exceção do meu caso. São funcionários que são treinados e capacitados para ficar aqui. Antes de 2009, nós tínhamos um conselho e uma coordenadoria. Eles só eram reunidos quando aconteciam os eventos.
Notisul - Este ano, Tubarão foi certificada pela ONU devido ao trabalho da Defesa Civil.
Tancredo - Fomos certificados como cidade resiliente. Este ano, no México, foram discutidos alguns parâmetros para as cidades se prepararem para eventos adversos. No Brasil, seis cidades foram selecionadas, todas catarinenses: Blumenau, Rio do Sul, Joinville, Florianópolis, Itajaí e Tubarão. Para ser uma cidade resiliente, é necessário trabalhar alguns projetos, entre eles é educação na escola, como a Defesa Civil na escola. Também entram os núcleos de Defesa Civil, a elaboração do mapeamento da área de risco, o plano de contingência, acompanhamento das conferências, treinamento e capacitação. Isto resulta para nós em trabalhar junto à ONU projetos a fundo perdido. Quando enfocamos a questão de trabalhar a segurança, a ONU faz investimento, através do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em países para suprir as necessidades. Isto é o que vamos buscar agora, a partir da criação dos núcleos. Nós apresentamos uma proposta à prefeitura para transformação da coordenadoria municipal em secretaria da Defesa Civil. Junto à secretaria, criaremos o fundo municipal.
Notisul - Hoje, o foco da Defesa Civil é a prevenção?
Tancredo - O foco na prevenção é trabalhar com planejamento. É desenvolver algumas ações e obras de continência, que são feitas para minimizar os efeitos. Em Tubarão, por exemplo, sabemos que a maioria das construções é na parte baixa da cidade. Precisamos investir em obras de drenagem; sistema de bombeamento e comportas; construir muros de contenção em encostas; alargamento de riachos e afluentes, como em São Martinho, Caruru. Também é preciso fazer investimentos no plano de contingência, manter um estoque de alimentos, de medicamentos.
Notisul - É a primeira vez que Tubarão terá um plano de contingência?
Tancredo - É. Temos um provisório. O plano de contingência que desenvolvemos terá um sistema de alerta e alarme. Este plano será divulgado para todas as pessoas. Hoje, o exército também tem o plantão dele, com uma equipe de 22 pessoas. Também temos o plantão interno da prefeitura, com o grupo de resposta de risco, composto por funcionários de todas as secretarias.
Tancredo por Tancredo
Deus: É a âncora da humanidade.
Família: A estrutura do ser humano. Trabalho: Não importa a profissão. Tem que ser bem feito.
Passado: Aproveitar o que errou para fazer bem certo.
Presente: Momento de planejar.
Futuro: Se não houver planejamento, o futuro é incerto.
Trabalhamos no plano de contingência nesta questão há mais de seis meses. Nós temos feito um trabalho diário no campo. Procuramos integrantes de entidades, instituições, associações de pais e professores, conselhos comunitários, postos de Estratégia Saúde da Família (ESF), clubes. Nestes locais, nós detalhamos a estrutura, a capacidade, se tem reservatório de água, quantos banheiros, quem é a pessoa responsável pelo local, onde está a chave.