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Entrevista

Paulo Damasceno

Parceria com empresa foi maior desafio

O gerente do Presídio Regional de Tubarão assumiu a unidade com a tarefa de encarar uma estrutura diferente e, com isto, mudanças significativas.

11 de Fevereiro de 2012 às 00:47min

O gerente do Presídio Regional de Tubarão, Paulo Joarez Domingues Damaceno, trabalha há quatro anos no sistema prisional. Começou como agente na Penitenciária Sul de Criciúma. Depois, passou a supervisor de plantão. Em 2010, surgiu o convite para trabalhar como chefe de segurança, no presídio da Cidade Azul. Ano passado, assumiu a gerência do novo presídio. Atualmente, cursa a faculdade de direito na Unisul. 

 
 
 
 
Mirna Graciela
Tubarão
 
Notisul - Após trabalhar no antigo presídio de Tubarão, qual foi o maior desafio ao assumir a administração da nova unidade?
Paulo - A parceria com o governo do estado e a empresa privada foi a dificuldade. É algo novo administrar todo este leque de funcionários que nós não tínhamos. De início, até ocorrer a adaptação, foi o mais embaraçoso. 
 
Notisul - Todos os funcionários são terceirizados pela empresa contratada?
Paulo - Não. Seis são do estado: o gerente, um agente penitenciário, um chefe de segurança e três supervisores, também agentes. Os outros são terceirizados da empresa Montesinos. Isto dá um total de 128, desde as copeiras, os da limpeza, administração, agentes, assistente social, psicóloga, pedagoga, dentista, professor de educação física, assistente laboral e assim vai.
 
Notisul - Com a parceria com o estado e a empresa, novas regras surgiram. Quais foram?
Paulo - Primeiro, foi o banho de sol. No antigo, eles passavam o dia fora e aqui são limitados, tem duas horas. No outro, as celas tinham vagas e camas somente para dois internos, cheguei a ter nove em uma dessa. Não tinha como mantê-los na cela desse jeito o dia inteiro. Hoje, no novo, temos oito camas em um quarto, ou seja, um por cama. Então, eles têm espaço e mais conforto. Outra mudança foi o cigarro. Não é mais permitido, nem os internos, nem os funcionários. Não pode mais fumar aqui dentro. A família também não pode trazer. 
 
Notisul - Essa proibição não foi bem digerida. Algo mais os deixou indignados?
Paulo - Não digo indignados. Mas até eles entenderem... Antes, a família podia trazer comida e outros produtos. Com essa parceria com a empresa, os parentes não trazem mais, nós fornecemos todo o material que eles necessitam.
 
Notisul - Isto também é por motivo de segurança?
Paulo - Sim. Para evitar a entrada de algo indesejado, como drogas e materiais cortantes. Já houve vários casos de encontrarmos droga e outras coisas. É uma forma de impedir.
 
Notisul - Quantos detentos o presídio tem hoje e a capacidade?
Paulo - No semiaberto, temos 109, com capacidade para 120. No fechado, estamos com 240. No total, são 349. Do semiaberto, 51 trabalham, seja nas oficinas, na desmontagem de chuveiros e alguns em serviços externos.
 
Notisul - Como gerente, tens contato direto com os detentos? 
Paulo - Tenho. Converso com eles. Todos os dias, os agentes passam as comunicações internas. Os internos encaminham memorando ao setores. A gente atende direto nas salas ou converso com eles nas galerias. 
 
Notisul - Quantos fugiram desde que o presídio foi inaugurado?
Paulo - Fugas não tivemos, chamamos evasões, porque são do semiaberto. Foram 11 evasões. Destas, oito foram recapturados.
 
Notisul - Alguns passam o dia fora no serviço e voltam somente para dormir...
Paulo - A maioria já teve direito de saída temporária e, como já está no regime semiaberto, falta para alguns mais e para outros menos período para ficar aqui. Já estão quase para sair. Teve um que faltava um mês no prazo para o regime aberto. Mesmo assim, se evadiu.
 
Notisul - Com você avalia a segurança no presídio? 
Paulo - Se todos os funcionários executarem o que é passado, é muito difícil alguém fugir do regime fechado. Impossível não digo, mas a dificuldade é enorme. Os agentes entram nas celas todos os dias e vistoriam, se alguém está tentando abrir algum buraco, por exemplo. Também fiscalizam a ordem e a limpeza das celas e paredes.
 
Notisul - E o sistema prisional de forma geral, qual a sua opinião?
Paulo - Tem tido progresso, principalmente na qualificação dos profissionais. Nós temos normativas a seguir, padronizamos o sistema em todo o estado, mas ainda existem estruturas antigas que não possibilitam um bom desenvolvimento do serviço. A nossa é moderna, temos recursos para executar um bom trabalho. Esta nova dinâmica tem mostrado que o sistema está evoluindo, mas é gradativa e, com certeza, a tendência é melhorar ainda mais.
 
Notisul - Há algum tempo, os detentos reclamaram que estavam apenas com um banho ao dia. Como está esta situação?
Paulo - Tivemos sim um controle de água. Mas não falta. Todos têm um banho por dia. Devido ao calor, vemos a possibilidade de dois ao dia. Estamos em contato com o Águas Tubarão para ver a possibilidade de ampliar esse volume. Avaliamos esta semana (a que passou) a quantidade e o consumo. E fizemos um estudo para ampliar o fornecimento.
 
Notisul - Tens planos de oportunizar trabalho aos presos?
Paulo - Estamos em conversas com a empresa Termobloco.  As refeições dos internos são em marmitas de isopor e, se der certo, não vão mais para a lixeira. Serão transformadas em blocos de concreto, onde 85% são desse material. Temos uma grande demanda de marmitas, a coleta diária dá mais de 700. Faremos esse trabalho no galpão solidário aqui ao lado. Hoje, as marmitas são colocadas em um aterro sanitário. Ao mesmo tempo, daremos trabalho aos internos. 
 
Notisul - E os detentos do regime fechado? Haverá trabalho?
Paulo - Com certeza, estou em contato, atrás de uma empresa para trazer um serviço para eles, mas tenho que avaliar o tipo de material que colocarei dentro das celas para isto, que defendam a integração física dos internos. A chance será dada aos que têm bom comportamento no fechado.
 
Notisul - Como vê o futuro do teu trabalho aqui no presídio e as suas metas?
Paulo - Espero que eu consiga administrar bem a unidade, que não é fácil. A dificuldade é os fatos que ecoam lá fora das paredes  nem sempre são verdadeiros e voltam como se fossem. Infelizmente, a primeira mentira que chega é a verdade que acaba se tornando.
 
Paulo por Paulo
Deus: É a força.
Família: É tudo.
Trabalho: Tem que ser feito com prazer.
Passado: Passou.
Presente: Momento de preparar o futuro.
Futuro: Espero o de melhor.
 
"Quanto ao fato de recuperação do detento, já vi situações. Acho difícil, no entanto, acredito que possa ocorrer.
Existe uma percentagem que tem a vontade de mudar, sair do crime". 
 
"A gente costuma dizer que mata um leão por dia, tem épocas que não matamos, a gente atordoa o leão e deixa para resolver no outro dia, 
de tantos problemas e situações inusitadas".
 

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