Não bastassem os vergonhosos longos anos de duração das obras de duplicação da BR-101, vinha sendo noticiado que o orçamento da ponte da Cabeçuda estava sob suspeita de sobrepreço. Fato lamentável por pelo menos três aspectos, caso viesse a se confirmar a suspeita. Primeiro, porque os possíveis desdobramentos dos fatos poderiam implicar em novos atrasos nas obras. Segundo, por trazer à tona mais um triste e repulsivo episódio de malversação de recursos públicos. Finalmente, porque decorridos todo esse tempo, após o sacrifício de tantas vidas e dos custos econômicos e financeiros imputados ao país, somente agora essa distorção seria percebida. Convém lembrar, no entanto, que o elevado custo dessa obra já foi objeto de questionamentos anteriormente, conforme noticiado por veículos de comunicação. Infelizmente, ao que parece, não recebeu a acolhida e reflexão necessária por parte da opinião pública e autoridades competentes.
Agora, outra notícia - animadora, para alívio geral - dá conta de que os últimos embaraços ao início das obras de transposição do Canal de Laranjeiras estão sendo superados. A Licença Ambiental de Instalação (LAI) já foi expedida pelo Ibama, restando da parte deste a expedição da Licença Ambiental de Operação (LAO) e a liberação, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), do edital de concorrência pública.
Independentemente do fato de o orçamento da ponte ter estado sob suspeita de ter sido inflado com sobrepreço, não é preciso ser especialista no assunto para se concluir que seu custo é desproporcionalmente elevado, quando comparado ao custo total da duplicação da rodovia. Uma solução mais modesta e um projeto menos sofisticado certamente não deixariam de estar à altura das necessidades. E o que é mais importante: a um custo e tempo de execução da obra significativamente menor.
É inegável a beleza e o apelo turístico que o projeto encerra - um fator importante, sem dúvida. Mas é de indagar-se: é concebível ter-se optado por uma solução tão onerosa quando sabemos que outras pontes localizadas na mesma rodovia necessitam de reformas e sequer tem recursos assegurados para executá-las? É um despropósito - de relevância ainda maior, se levar-se em conta que da malha viária total do país, apenas 6% das suas estradas são pavimentadas. No México, por exemplo, essa proporção chega a 36%. Na Rússia, 79%. Uma comparação, então, com países desenvolvidos, seria covardia!
Lamentavelmente, muitos gestores públicos insistem irresponsavelmente em ignorar a realidade do país e a necessidade da busca permanente de melhoria na qualidade dos gastos - seja por ausência de bom senso, incompetência ou interesses subalternos.