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Opinião

Jogando para a plateia

Whashington Adriano da Silva - Professor - eidrian-sl@hotmail.com

07 de Fevereiro de 2012 às 00:51min

 

O   mundo acompanha com perplexidade a onda de terror homofóbico que se espalhou em Uganda, país africano mergulhado numa radical religiosidade intolerante. O assassinato do ativista David Kato, anunciado há mais de quatro meses, expõe o nível de tensão das questões relativas à diversidade naquela nação, cenário esse percebido por quase toda África. A versão oficial da polícia ugandense trata a violência como um crime comum de latrocínio. Ironicamente, tentam descaracterizar as reais motivações do ato brutal e covarde. Tudo por conta de um abominável projeto de lei capaz de tornar a homossexualidade crime, cuja pena seria a morte. Apesar da pressão internacional, recriminando tal iniciativa, o congresso daquela nação insiste em discutir a matéria, legitimando agressões semelhantes à sofrida por Kato. Existem, espalhadas pelo mundo, flagrantes agressões aos direitos humanos, travestidas de legislações fundamentadas em princípios culturais e religiosos. Usam cinicamente a fé e a cultura para disseminar o ódio.
 
Os Estados Unidos, a França e a Inglaterra recriminaram de forma dura o episódio, cobrando rápidas explicações das autoridades locais. O Brasil, na sua conhecida cantilena do “não sei, não vi, não me meto”, tão bem introduzida pelo ex-presidente Lula e reproduzida perfeitamente por sua sucessora, não fez qualquer manifestação sobre o caso. Aliás, não poderia ser diferente. Uma governante que, no afã de tentar salvar um ministro acusado de enriquecimento ilícito, manda suspender a distribuição de material didático, elaborado pelo próprio governo, relativo às questões de combate à homofobia, não pode ser considerada defensora dos direitos humanos. Na recente visita a Cuba, Dilma não recebeu representantes dos movimentos contrários ao regime de ditadura, a qual, em pleno 2012, ainda encarcera pessoas por questões políticas. Ao defender o caudilhismo cubano, sinaliza a existência de ditaduras amigas e ditaduras não tão amigas assim.
 
A pirotecnia governamental é clara quando vemos Dilma posar de boazinha ao lado de Sean Penn, mantendo tropas do exército no Haiti, enquanto o Brasil vive uma verdadeira guerra civil, com a violência invadindo shoppings e agências bancárias. Usa a força da base aliada para aprovar a comissão da verdade ou a DRU, mas deixa à própria sorte o projeto de criminalização da homofobia, que tem como autora uma senadora do próprio partido. Enquanto isso, as agressões aos LGBT’s continuam impunemente. Nessa política de jogar para a plateia do momento, percebemos lentamente a banalização das questões fundamentais para a manutenção das bases democráticas. A cooptação dos movimentos sociais, hoje escondidos nas barbas do palácio, fez calar as vozes de contestação. Afinal, estão do mesmo lado. Apesar do visível descaso do atual governo com a discussão dos direitos humanos, as manifestações outrora combativas e aguerridas emudeceram. Caso Egito e Líbia não se insurgissem contra seus ditadores, o Brasil ainda continuaria tratando-os como ditadores aliados, atitude frequente no lulismo.
 
Fernando Henrique Cardoso foi duramente criticado por ter se esquecido do que escrevera em seus livros, inclusive em parceria com grandes expoentes da intelectualidade brasileira, como Florestan Fernandes. Introduziu no país um neoliberalismo tupiniquim promotor de reformas muito distantes do esperado pelos setores socialistas da política brasileira à época. Esses setores morreram. Sobrevivem alguns moribundos escondidos no PSOL ou no PSTU. Aliás, o PSD é a síntese do processo político atual. Nem de esquerda, nem de direita e nem muito ao centro. O petismo, principal algoz de FHC, recebeu a herança maldita. Transfigurou-a em realizações atuais apagando as digitais de seus verdadeiros autores, criando um fantasioso admirável mundo novo, nunca antes visto nesse país. No entanto, há algo pior que renegar sua própria teoria. Ao se calar diante da morte de Kato, estender a mão à ditadura dos irmãos Castro, manter tropas no Haiti com ares de imperialismo e virar as costas para o movimento LGBT, Dilma renega sua própria história.   

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