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Opinião

O Contestado ainda vive na aspiração social dos “sem terras”

June Schiari dos Santos - Acadêmica de história • Tubarão - juschiare@hotmail.com e june.santos@unisul.br

19 de Junho de 2012 às 00:27min

Falando em história, trago aqui ao leitor um assunto que chama “Revolta do Contestado”, próxima de completar seu centenário. Em 1912, no mês de outubro, os sertanejos da região sul revoltaram-se contras as forças econômicas da época. 

Na segunda metade do século 19, a província do Paraná, que se estendia até o Rio Grande do Sul e ocupava uma área de 48 mil quilômetros quadrados, disputou com Santa Catarina a região conhecida como “Contestado”. Hoje, é uma região que pertence aos estados do Paraná e de Santa Catarina.
 
Iniciamos então essa longa trajetória, relembrando um dos mais violentos conflitos do Brasil República, que ocorreu entre 1912 e 1916. Era uma revolta genuinamente camponesa. A guerra do Contestado, como ficou conhecida, foi um conflito armado entre os camponeses e a elite rural, conjugada ao poder estadual e federal brasileiro. 
 
Suas origens são sociais, pela falta de regularização da posse de terras e da insatisfação cabocla, numa região rica em erva-mate e madeira. O embate agravou-se pela presença expressiva e o fanatismo religioso do beato José Maria, que, com a fé, liderava os grupos menos favorecidos. Movidos pela crença, insatisfação e incentivo do beato, estes lutaram até a morte por seus direitos. 
 
Os sertanejos revoltados contestaram a doação que o governo brasileiro fez aos madeireiros e à empresa norte-americana Southern Brazil Lumber & Colonization Company.  Após a conclusão da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul, a companhia Brazil Railway Company, uma de suas filiais, recebeu do governo catarinense 15 quilômetros de terras, de cada lado da ferrovia, provocando a desapropriação de milhares de colonos. 
 
Diante da situação conflitante, o governo brasileiro declarou a área em litígio como devoluta, “sem dono”. Os sertanejos viram então suas terras usurpadas, e os trabalhadores (ferroviários) foram demitidos pela companhia, sendo levados a fome, miséria e desemprego. Assim, já desmotivados e revoltados, sob a proteção do beato José Maria, organizaram-se em comunidades, com terras doadas, inclusive, por fazendeiros que admiravam o beato e tinham sido prejudicados pela situação. 
 
As guerras sucederam-se ao número de mortos no sertão, onde as batalhas se deflagraram. Os caboclos enfrentaram as forças armadas da polícia que apoiavam os coronéis da região, vencendo-os por várias vezes. 
 
Porém, o palco da guerrilha troca de cenário com a entrada do general Setembrino de Carvalho, comandando as tropas oficiais e militares, quando destruíram várias “Vilas Santas”, usando equipamentos modernos, como aviões de bombardeio. A carnificina foi total, sobrando apenas alguns grupos dispersos, que continuaram a guerrilha até o início de 1916. Era a luta dos “pelados” contra os “peludos”.
 
A forma como se resolveu a questão do Contestado nos deixa triste, pois os interesses financeiros falaram mais alto do que os clamores dos sertanejos, reprimindo os movimentos contra os interesses do governo da época.  Trata-se de uma herança que se percebe ainda hoje nos clamores dos sem terra, apesar das controvérsias da mídia massiva.

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