“O crime é uma pirâmide e o tráfico de drogas é a base”

“O crime é uma pirâmide  e o tráfico  de drogas é  a base”

Mirna Graciela
Tubarão

A palavra medo parece não estar em seu dicionário. A persistência é o que o guia todos os dias. Desistir? Jamais! Ele também não parece sossegar enquanto não atingir seu objetivo. E levantar a verdade é a sua bandeira. Por isso está onde está. William Cezar Sales nasceu em Florianópolis. É formado em direito pela UFSC, pós-graduado em direito penal, com especializações em direito penal e processo penal, análise criminal e inteligência criminal com vários cursos na área. Atuou em Blumenau, Florianópolis, São José e São José dos Cedros, de onde veio para assumir como Delegado titular da Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Tubarão, que apura os crimes de homicídios e tráfico de drogas.
Notisul – O senhor chegou a Tubarão há pouco tempo e já encarou dois crimes chocantes. O da menina Mariah Della Giustina Gonçalves, de só 10 meses, de Braço do Norte, morta asfixiada em 25 de fevereiro pelo padrasto, era o seu plantão naquele fim de semana. E o homicídio de Ana Jéssica do Nascimento de Abreu, 17 anos, estrangulada com a tira da própria bolsa pelo companheiro, em Tubarão, que abandonou o seu corpo em uma lavoura de arroz.
Delegado Sales – Este último, da Jéssica, foi bastante difícil, mas logramos êxito, analisamos muitas informações, a equipe trabalhou muito diuturnamente. Penso que conseguimos rapidamente em decorrência da experiência no período em que atuei na Antissequestro, na época como Agente, em Florianópolis. Lá, aprendi, com o então delegado Renato Hendges a nunca desistir, analisar tudo que aparece, persistir sempre. Ajo assim, não desisto tão fácil, retorno e examino tudo criteriosamente. Porque sempre haverá uma pista, uma evidência. Foram oito dias de intenso trabalho, nossa equipe da DIC muito engajada, prendemos o acusado em São Paulo, onde estava escondido na casa de parentes. E o caso da bebê Mariah, pelo clamor social, tivemos que raciocinar com muita precisão e rapidez. Algumas ações foram tomadas, como a prisão dos pais da criança, com um pouco de ousadia, mas foi essencial para a elucidação do crime. Casos extremos requerem medidas extremas. O padrasto foi o último a entrar em contato, o hospital tinha as evidências de maus-tratos, a perícia, embora não conclusa, contradizia a versão do padrasto, não havia outra decisão a tomar, se ele soubesse que a polícia estava no caso iria fugir, e não podíamos deixar isso acontecer, então assumimos a responsabilidade da prisão. O sentimento é de dever cumprido, de resolver dois crimes de grande repercussão e dar uma resposta rápida à sociedade. Peguei uma equipe excelente, gostam tanto quanto eu do que fazem, os policiais da DIC formam uma equipe sem igual.

Notisul – Um crime de grande repercussão em Tubarão foi a morte de Carol Seidler Calegari, de 7 anos, em 2014. Ela foi estrangulada e encontrada em uma caixa de papelão. O homicídio foi solucionado pela DIC à época, mas a mãe da menina, a autora, está foragida e na lista de procurados da Interpol. Existe a possibilidade de reabrir este inquérito?
Sales – Cheguei agora na cidade, é um caso que está, a princípio, encerrado, o inquérito foi encaminhado para o Fórum, inclusive muito bem feito pelo delegado Rubem Teston. Mas… não quer dizer que não possa ser reaberto se surgirem novas evidências que possam levar ao paradeiro de Silvana Seidler, a mãe e autora do assassinato.

Notisul – Que análise geral pode ser feita nestes pouco mais de 30 dias à frente da DIC como delegado titular?
Sales – Tubarão é uma cidade com uma Polícia Civil bem atuante na investigação e na segurança pública. Neste ano, dois homicídios foram registrados e elucidados. Isso é resultado de um trabalho sério. E se reflete nos números. É um dos municípios mais seguros em que trabalhei. Temos conhecimento do número de assassinatos ocorridos em anos anteriores em Tubarão em função do tráfico de drogas, então se compararmos estamos bem posicionados. Hoje podemos respirar aliviados neste aspecto. Houve uma reestruturação da Polícia Civil, que priorizou, acima de tudo, o trabalho de investigação. Não basta ter uma polícia preventiva, tem que ter também a investigativa. Tubarão é uma prova de que com uma Polícia Civil forte, a segurança pública é mais eficaz.

Notisul – Qual o seu posicionamento sobre o tráfico de drogas e suas consequências?
Sales – Se as pessoas consumirem drogas vai continuar existindo obviamente. Enquanto a população não se conscientizar de que o tráfico financia os crimes, não haverá uma solução definitiva. O crime é uma pirâmide e o tráfico é a base. Depois seguem os outros, como assassinatos, roubos e furtos. Um usuário, por exemplo, quando não tem dinheiro, vai praticar um delito para sustentar seu vício, e assim vai. Se sufocarmos o tráfico, consequentemente haverá uma diminuição significativa nos outros tipos de crimes.

Notisul – Legislação Penal Brasileira. Se pudesse fazer alguma alteração, o que seria?
Sales – Ela não é perfeita, mas a mudança deve ser estrutural, passa pela educação. Não se trata exatamente da lei, mas é questão de costumes, da cultura de um povo. Um exemplo: Quando houve greve na Segurança Pública no Espírito Santo, o que ocorreu? A população foi saquear as lojas, furtar, mesmo pessoas de bem. Porque não havia segurança nas ruas, isso independe da lei, é muito mais profundo. É necessária uma reforma mais profunda, sobretudo na educação. Mas se tivesse que mudar algo, fortaleceria a investigação feita pela Polícia Judiciária, ou seja, a Polícia Civil, daria mais autonomia e criaria mecanismos que tornasse a obtenção de informações mais célere, porém acredito que isso virá com o tempo, pois a verdade é que a Polícia Civil, por meio do delegado, é a primeira a garantir os direitos fundamentais do cidadão. Outras instituições conduzem o preso/detido até a delegacia e/ou Centrais de Plantão Policial, mas é a Polícia Civil, na pessoa do delegado, que vai decidir, de acordo com os elementos probantes existentes naquele momento, se a pessoa conduzida vai ficar presa ou não. Ocorre que, às vezes, não há elementos mínimos necessários para o cerceamento da liberdade do conduzido e o delegado é obrigado a soltá-lo, pois assim determina a Lei. Por isso a existência do inquérito policial, que visa buscar, por uma investigação mais aprofundada, elementos probatórios que garantam a segregação definitiva do indivíduo que comete crimes, é um trabalho árduo e de inteligência que a Polícia Civil faz, e isso, dependendo do caso, demanda certo tempo, e é um serviço às vezes meio ingrato, pois ninguém vê e/ou muitas pessoas nem fazem ideia de que isso ocorre.

Notisul – Maioridade penal. O senhor é contra?
Sales – Sou contra, mas no caso do tráfico de drogas, talvez teria que se fazer um estudo. Se fosse para diminuir a idade, que ficasse estabelecida então para 10 anos, para inibir de vez a utilização de crianças e adolescentes na venda de entorpecentes. Mas isso somente seria possível mediante muitos estudos e uma reforma no sistema carcerário no Brasil, e não temos estrutura para isso.

Notisul – Deveria ter uma prisão diferenciada para os tipos de crimes?
Sales – A lei prevê isso, mas não é o que ocorre. Não há estrutura nos presídios brasileiros, salvo algumas prisões federais. Seria muito boa essa separação para que a prisão não se tornasse uma universidade do crime, realidade nossa atualmente. É só voltar ao passado, em outras épocas, na ditadura, por exemplo, quando juntavam os presos políticos com os presos comuns. Foi quando surgiram os grandes sequestros no Brasil. Isto não quer dizer que sempre ocorre, mas as chances são maiores.

Notisul – O que é preciso para ser um delegado?
Sales – Primeiro ser formado em direito e passar seis meses na Acadepol, aprimorando o conhecimento do direito; há também disciplinas práticas como técnicas de abordagem policial, tiro, artes marciais, combate em ambientes confinados (CQB) e outras mais. A Acadepol fica em Florianópolis. Depois, logicamente ter muita vontade, coragem, senso de equipe, liderança, dedicação, abnegação e, acima de tudo, gostar do que se faz. A profissão é um sacerdócio quando realmente se quer fazer a diferença.

Notisul – Nestes seus anos de experiência, poderia citar um ou mais casos que lhe surpreenderam e abalaram o seu estado emocional?
Sales – Um fato que me marcou e que posso citar como exemplo do que foi dito acima, da importância da Polícia Civil e do delegado como garantidor dos direitos fundamentais do cidadão, remonta a 1995. Havia entrado na polícia há alguns meses como investigador e naquele dia estava na Delegacia da Mulher em Blumenau, quando chegou uma pessoa conduzida pela PM. Era um homem de uns 30 anos, de cor negra, e estava bem machucado, na ocasião não o indaguei de como ele havia se ferido, somente perguntei o que havia feito para estar ali. Ele me olhou nos olhos e disse: “disseram que eu estuprei uma moça, mas senhor, não fiz isso, não fiz”. Não sei o porquê, mas acreditei naquele homem, imediatamente procurei o delegado e pedi para investigar mais a fundo. Na ocasião, foi lavrado o Auto de Prisão em Flagrante, porque, naquele momento havia o mínimo de informações, e esse mínimo condenava aquele homem. Imediatamente comecei as investigações, foram dias procurando pistas, fazendo inquirições e produzindo provas, bem, resumindo, ao final, a Polícia Civil conseguiu comprovar que o homem era inocente, que ele não havia estuprado a jovem. Na verdade o que ocorreu é que aquele homem negro de 30 anos aproximadamente, na ocasião teria trabalhado como servente de pedreiro na casa da mãe daquela jovem, não havia recebido o pagamento, e estaria a cobrando por isso todo dia. Como não queria efetuar o pagamento ao homem, e de saco cheio, a mãe da jovem combinou com sua filha de dizer que ele a tinha estuprado, assim ele não a incomodaria mais. O mais gratificante foi ver ao fim da audiência o choro de alegria e alívio daquele homem e de sua família ao se ver livre de uma falsa acusação, que o manteria na cadeia por uns bons anos e acabaria com sua vida. Esse é o dever da Polícia Civil, o dever com a verdade dos fatos, apurar o que realmente ocorreu, e não simplesmente prender a qualquer custo, não importando como.

Notisul – O senhor já ficou ferido em alguma diligência?
Sales – Sim, já, e foi algo que marcou muito minha trajetória profissional. Fui atingido por uma rajada de metralhadora. Isso ocorreu em 2008 na Deic, em Florianópolis. Nós fomos prender um assaltante em Curitiba, uma grande operação. Sete tiros me acertaram. Algumas balas pegaram no colete, mas outras não. Foram algumas cirurgias e alguns anos de fisioterapia e sem pegar em uma arma e, praticamente, no fundo do poço. Então, resolvi que tinha que sair de lá. Eu não podia nem escutar barulho de bombinha. No início quando voltei a andar, tinha que usar muletas, depois uma bengala, trabalhei muito para reverter essa situação, pois meu maior desejo era ser um policial atuante. Hoje, graças a Deus, aqui estou.

Notisul – No dia a dia, usas algum tipo de proteção ou acreditas em algo como forma de se manter protegido?
Sales – Desde que entrei na Polícia Civil, o terço está em meu bolso, ganhei da minha mãe, posso mudar de roupa, mas está sempre aqui comigo. Também a minha fé, a qual estou sempre cultivando, inclusive sou catequista há mais de dez anos. Dou catequese todos os sábados em São José e isso é muito gratificante, me dá forças para seguir sempre adiante.