Jefer Francisco Fernandes: “É o momento mais feliz da minha carreira”

Jefer Francisco Fernandes: “É o momento mais feliz da minha carreira”

Jefer Francisco Fernandes tem 48 anos, é natural de Florianópolis. Ele é tenente-coronel da Polícia Militar, em Laguna. Estudou no Colégio Militar Feliciano Nunes Pires, no bairro Trindade, na capital catarinense entre 1984 e 1986. Local onde iniciavam as atividades pela manhã e só saiam no final da tarde. Em 1988, prestou vestibular para o curso de oficiais da Polícia Militar, no qual foi aprovado. Ingressou como aluno. Fez Direito na Unisul. Casado com Elizabeth Pavanati Fernandes e tem uma filha, Izadora Pavanati Fernandes, 20 anos. Já comandou a unidade da Polícia Militar em Capivari de Baixo, em 2005. Entre 2007 a 2014 esteve à frente da Polícia Ambiental e desde 2014 comanda o Batalhão de Laguna.

 

Jailson Vieira
Laguna

Notisul: Nos dois últimos anos, Laguna figurou como uma das cidades com alto índice de violência. A situação hoje como está?
Jefer: Sempre procuramos estar próximos dos cidadãos auxiliando, escutando os seus pontos críticos e também positivos. Dentro de uma dinâmica do comando e nessa política de estar junto à comunidade, temos inovado em alguns aspectos. Estávamos com um alto índice de homicídio em 2015 e no ano passado. Laguna ficou no ranking de primeiro e segundo colocado em nível estadual. Isso proporcionalmente ao número de habitantes na cidade. Começamos um projeto de prevenção, de melhorias de ostensividade de policiamento na rua. Estar naqueles locais que realmente precisamos foram necessários muitos levantamentos de inteligência. As nossas ações neste quesito foram bem interessantes para esse aspecto. E neste projeto todo conseguimos diminuir o número de criminalidade. Neste ano, tivemos o registro de seis homicídios na cidade, os índices de práticas delituosas diminuíram graças a esses projetos que foram colocados em prática e também ao empenho dos nossos policiais, porque o comandante na verdade é só o maestro. Quem faz as coisas ocorrerem são os policiais que trabalham lá na rua, são eles que estão juntos da população, que fazem um parto ou atendem uma tentativa de homicídio. Sempre tive a sorte, a graça de trabalhar em locais, onde o corpo de policiais são extremamente bons. Tinha as ideias e eles as abraçavam e faziam as coisas acontecer. Então me sinto um homem realizado e bem sucedido, porém todo esse sucesso é decorrente dos trabalhos realizados que estes policiais fazem lá fora. Se lá eles realizam as coisas certas e trazem os resultados positivos, o mérito é todo deles. Mas se lá fora falhamos, a culpa é minha. O erro é meu porque acredito que faltou de minha parte um momento de orientação desse pessoal. Mas só temos colhido bons frutos. Há o reconhecimento muito positivo da sociedade. Já implantamos o programa rede de vizinhos, no qual temos vários bairros inseridos nesta iniciativa, que é uma grande rede de prevenção, onde a comunidade começa a se conhecer, fazer com que as demandas sejam atendidas, a alimentar o policial do bairro com informações pertinentes que trará benefícios para todos.

 

Notisul: Um grande problema é que as impunidades de menores acabam fazendo com que sejam assediados para entrar no mundo do crime e cada vez mais isso é comum. Qual o motivo dessa situação?
Jefer: Um dos problemas é a questão social. Esses jovens têm que realizarem uma atividade, eles não podem ficar parados. É muito importante principalmente em idade escolar, que os jovens tenham no período oposto as aulas uma atividade extracurricular, no qual só cheguem em casa a noite para ficar com a sua família e descansar. Isso irá construir um bom cidadão, por que hoje os valores são deixados de lado e infelizmente essa juventude, principalmente os de periferia, onde a estrutura do Estado não chega, eles se sentam vulneráveis, essa parte da população está carente e por isso ficam suscetíveis a intervenção de marginais e grupos que procuram sempre praticar crimes. A legislação ao mesmo tempo em que estabelece um regime especial para o menor adolescente é uma ferramenta de proteção. O menor pratica o ato infracional, o qual não é dado o mesmo tratamento de um crime praticado por um maior. Por muitas vezes eles saem pela porta de frente de uma delegacia e do juizado, porque a legislação estabelece isso. Contudo, o problema não está na legislação, mas na carência social desse jovem. Se estamos nos nossos bairros e verificamos se as nossas ruas estão pavimentadas, temos iluminação pública, saneamento básico, seus pais estão empregados, há uma creche, uma escola, uma quadra polivalente essa pessoa se sente valorizada, integrada no contexto social. A pior coisa que pode acontecer para o cidadão são eles se sentirem isolados e excluídos de um sistema social. A revolta aparece porque é feito um paralelo da vida que se tem e a que o outro possui e verifica-se que está muito abaixo daquilo que ele esperava de mínimo.

 

Notisul: O que fazer para que essas impunidades não ocorram? Há um remédio para isso?
Jefer: O Estado tem um papel muito interessante na formação do jovem. E Policia Militar por meio do programa Proerd busca dentro da sala de aula fazer a prevenção. Hoje a melhor ferramenta que se pode ter é a educação. Se temos o policial, o juiz, médico, bombeiro, encanador é porque todos foram a uma escola e tiveram um mestre a frente disso. A sociedade tem que apostar na qualidade da educação, se educamos bem vamos ter bons cidadãos. Eles sairão dos bancos das instituições de ensino valorizados, sabendo respeitar aquilo que é aplicado e também os seus limites.

 

Notisul: Como o senhor avalia a polêmica em torno de uma possível redução da maioridade penal?
Jefer: Há correntes que apoiam a redução e aquelas que não. Numa visão pontual da sociedade, ela almeja que seja reduzida para 16 anos, as ocorrências para a prática criminosa. Mas temos que entender a necessidade de uma estrutura física e logística para suportar essa vontade. Caso esses jovens sejam presos e condenados pela justiça é importante que se tenha uma ressocialização. Este processo que é o mais demorado e detalhado. Se ocorrer falha neste quesito com certeza ele voltará para a rua da mesma forma ou até pior. Os pontos que devem ser observados é que esses estabelecimentos penais ofertarão para que possam ter um momento de reflexão, entender o que foi feito é errado, além de serem capacitados para exercerem uma atividade laboral lá fora. A maioridade penal é uma questão pontual, porém há toda uma plataforma estrutural para que ocorra e tenha condições de atender essas demandas. A sociedade quer a sensação de segurança.

 

Notisul: Na sua visão quais as principais carências da segurança pública?
Jefer: Um dos nossos maiores problemas é a questão do efetivo. Onde existe um policiamento postado com a visão preventiva e não repressiva. Quanto mais prevenções tivermos menos serão as práticas delituosas. Se há um centro comercial e em cada quadrante um profissional de policia, as chances de ocorrer uma prática delituosa neste local são mínimas, mas quando se tem uma redução de efetivo ou quando a policia só aparece na situação de repressão, realmente a sensação de segurança deve cair e os índices de criminalidade aumentar. A carência da segurança pública no aspecto da polícia militar é a reposição do nosso efetivo.

 

Notisul: O efetivo em toda a região está defasado. Quantos policiais são necessários para diminuir ou suprir essa necessidade?
Jefer: Temos uma deficiência em Laguna de 40 policiais. Para reativarmos o quadro que tínhamos há alguns anos, é necessário ter esse número. A Cidade Juliana possui uma população estimada em 50 mil habitantes e mais aproximadamente nove mil pessoas em Pescaria Brava. Porém, Laguna não tem só a questão do habitante, mas a população flutuante. Todos os finais de semana são recebidas milhares de pessoas no município, quando ocorrem as grandes festas e no verão Laguna se transforma de uma cidade de porte médio para uma grande metrópole com 150 ou 180 mil pessoas. Isso durante três ou quatro meses. O aparato policial é constituído para a demanda da cidade, contudo quando chega esse período extraordinário buscamos, precisamos e necessitamos de uma reposição do efetivo. Não estamos nem pedindo o aumento do número de policiais, mas a reposição. Essa defasagem vem desde 2010, onde 51 policiais militares foram para a reserva remunerada.

 

Notisul: Algum serviço prestado foi prejudicado com essa falta de efetivo?
Jefer: Há setores na policia que desativamos, mas outros temos que manter. O rádio patrulhamento é o serviço que não pode parar. Na verdade é a 24 horas da policia militar. Se for ligar o 190, a pessoa será atendida por um agente e em poucos minutos alguns servidores estarão para o atendimento. Existem alguns setores do policiamento que são colocados em níveis diferenciados e não podem ser paralisados. Não posso parar uma radiopatrulha, mas tenho que optar por um policiamento ostensivo a pé ou coisa parecida. E com isso a sociedade sente, porque ela começa a ficar muito íntima e acaba questionando o motivo do ocorrido.

 

Notisul: Na alta temporada como é o trabalho do batalhão em Laguna?
Jefer: Este ano solicitei 43 policiais de reforço e o pedido foi atendido. Foi o melhor ano de segurança pública no verão, em Laguna. Os índices de criminalidade neste período comparando os anos anteriores foram infinitamente menores, conseguimos estabelecer policiamento 24 horas, na área do Balneário do Farol de Santa Marta, Praia da Barra, Praia do Sol, mais duas viaturas na Praia do Mar Grosso e policiamento no Centro Histórico, o município ficou com a sensação de segurança no qual todos querem. Com um número bom de trabalhadores é possível prestar um serviço público de qualidade. No carnaval trabalhamos com uma média de 115 policiais por dia para manter toda a estrutura. Temos que estar preparados para receber a demanda. Na alta temporada sempre precisamos de reforços.

 

Notisul: Qual o seu posicionamento sobre o tráfico de drogas e suas consequências?
Jefer: O tráfico de drogas é o câncer da sociedade. 99% das ocorrências estão relacionados ao tráfico de drogas. As pessoas que são viciadas muitas vezes quando não se conseguem manter o vício saem para assaltar, roubar e furtar. Elas praticam delitos que venham a sustentar este problema. O tráfico de drogas é o caos social e tem que ser contido e reprimido, porque não há a possibilidade de fecharmos os olhos para tráfico de entorpecentes. Em Laguna temos um número bem convidativo de pontos de vendas e ocorreram várias intervenções policiais com êxito, onde é preso o traficante, a droga e todos os instrumentos utilizados naquela prática são apreendidos. Ao mesmo tempo em que fechamos um ponto abre-se outro. É um trabalho incessante, no qual a policia militar nunca deixa de realizar. Se combatermos o tráfico de entorpecentes evitamos que os nossos filhos se envolvam com as drogas, que crianças e adolescentes carentes e vulneráveis sejam aliciados pelos traficantes, porque essas drogas não entram nas nossas escolas. O trabalho em cima dessa questão não pode parar. Analisamos diariamente toda a movimentação para chegar ao momento certo e prender os traficantes.

 

Notisul: Nestes anos de experiência, poderia citar um dos casos mais felizes e o que abalou o seu estado emocional?
Jefer: Várias situações chamam a nossa atenção. Quando estava na Polícia Ambiental trabalhei em uma operação no Morro do Baú, em Itajaí. Foi uma grande enchente que tivemos em 2008, no qual o morro cedeu na encosta e soterrou uma vila. Trabalhei lá uns cinco dias e presenciei o flagelo. Toda uma vila destruída, sonhos que foram soterrados, pessoas que morreram, muitos caixões chegando, centenas de pessoas chorando e há uma hora que você se sente até impotente. Ao mesmo tempo em que tínhamos que dar o suporte para aquelas vítimas, também me sentia muito fragilizado, porque parecia que a minha família estava envolvida em tudo aquilo. Foi uma experiência diferenciada. Por outro lado, momentos felizes têm vários, como salvamentos, um deles de um casal de irmãos que se afogavam na Praia do Gi, recentemente em Tubarão um policial verificou que uma moça queria se jogar da ponte e a salvou. Não estava em muitos casos, como esse em Tubarão e também em outras cidades, mas como estou nessa corporação fico alegre com o feito do outro. Sou honrado por trabalhar em uma instituição que faz de tudo, desde a colaboração em um parto quanto em situações como em um homicídio e acidente grave.

 

Notisul: Quais os projetos a serem executados nos próximos meses ou anos que o senhor quer executar?
Jefer: O projeto é sempre de melhorias. O primeiro deles é a recomposição do efetivo. É um compromisso meu com a tropa e com a sociedade. O segundo é a melhoria da instalação física da unidade. Esse quartel era uma escola é uma edificação de quase 50 anos, que aos poucos foi se adaptando a corporação e hoje precisamos fazer uma mudança gigante nela, tornar uma unidade mais moderna e totalmente adaptada a questão policial e sempre melhorar o atendimento a população. Quando me aposentar e o próximo que ocupar o meu lugar, quero que tenha tranquilidade de administrar um quartel, uma unidade e uma cidade que está dentro dos parâmetros de normalidade.

 

Notisul: O que muda de guarnição para batalhão?
Jefer: Dentro da estrutura militar temos as Organizações Policiais Militares (OPM). Temos os destacamentos, o menor grupo de policiais, os pelotões, companhias e batalhões. Antes Laguna era uma grande companhia, em 2005 essa companhia foi transformada em guarnição especial, que podemos denominar de um momento de transição, o qual deveria durar apenas um ou dois anos, mas que se estendeu até 2017. Isso é positivo para cidade porque tem uma estrutura organizacional mais adequada e há a possibilidade de incremento do efetivo, porém, dependerá da capacidade do estado repor o número de trabalhadores. Não posso me furtar que apesar de toda a defasagem o governo que mais contratou efetivo foi este em 182 anos de existência. Por outro lado alguém deixou de contratar.

 

Notisul: Há a possibilidade de implantação de uma escola militar em Laguna?
Jefer: Há o Colégio Feliciano Nunes Pires, instituído na Trindade, em Florianópolis, em 1984. Antes o colégio era só sediado na capital. Em 2015 Lages recebeu uma unidade. Ela é um tipo de instituição que todos querem por diversas questões e principalmente pela construção de um bom cidadão. E Laguna ficou inserida nesse contexto. Em uma audiência que estivemos o prefeito Mauro Candemil ressaltou que havia um projeto de implementação de uma instituição na cidade. Fomos atrás de mais informações e hoje existe um compromisso do governo e vice do Estado, do chefe do poder executivo da Cidade Juliana e do gerente da Agência de Desenvolvimento Regional em trazer um polo para o município. Conforme informações já existem o prédio que será utilizado, o da Escola Básica Jerônimo Coelho, um colégio tradicional, no Centro Histórico e o projeto é para 2018. Existe uma grande expectativa. A unidade é regional e não somente funcionará para alunos de Laguna.

 

Notisul: Qual a mensagem que o senhor deixa para a população abrangente deste batalhão, no que se refere a segurança pública da PM que trabalha 24 horas por dia?
Jefer: A população tem que entender que a polícia militar é um patrimônio do povo. Outro aspecto importante é que o cidadão de bem tem que proteger a sua polícia. É o único órgão de proteção social que se tem por meio de uma ligação no 190. As pessoas podem ficar tranquilas que a polícia militar está à inteira disposição das pessoas, os nossos servidores são dedicados à instituição e as pessoas. Que a população continue a participar dos nossos programas e que continuem a colaborar.