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A finitude da eternidade

Parece mesmo prosaico que em pleno tempo de consumismo desenfreado, confusão de valores e sentimentos jogados ao abismo, o símbolo do infinito seja tão utilizado. Em tatuagens, estampas de roupas, colares, brincos, imagens de internet. Mas afinal, o que querem infinitamente? Conviver com alguém por mais de cinco anos já não faz parte de nossa cultura. 

Sonhar com algo durante muito tempo também não, afinal, a vida é curta e só temos uma para aproveitar. Logo, perder tempo com sonhos considerados impossíveis seria perda de tempo – e tempo, é dinheiro -, passar mais de seis meses tentando conquistar quem se ama também já não faz parte dos nossos planos. Não quer? Tem quem queira! Ouvir música clássica, então? Um assassinato à vida que nos resta por tamanha monotonia. Criamos prazos de validade para o que não é perecível. Amar tem prazo de validade, amizade tem prazo de validade, uma conversa, também. Tudo se torna pacato e sem graça, ao mesmo tempo em que ele, o tempo, passa por nós. A gente gosta do que não tem. Ou do que imaginamos que não poderemos ter. Aquela pessoa que cruzou com você na rua, e nem sequer te passou os olhos. Aquela roupa que está no alto da vitrine da qual o valor é maior que o seu salário mensal.

O que acontece é que nos prendemos a estabilizar o que temos, como possuidores de algo que logo perde o valor, e a nos aborrecer com aquilo que não poderemos ter. Frustra pensar que querer está longe de poder. Mas, mais comovente ainda, é quando, sem querer, percebemos que não somos só agentes de uma sociedade onde tudo logo passa, mas também, vítimas desse ciclo. 

E aí você quer viver algo estupendo, quer sentir a eternidade dentro das horas, “chutar o balde”, viver como se não houvesse amanhã, com tudo o que isso possa trazer. Sabe o que encontra, companheiro? Aquela correntinha com o símbolo do infinito pendurada no pescoço, mostrando que por mais que sejamos moderninhos, logo logo a gente descobre que também tem prazo de validade.

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