Em setembro de 1979, foi anunciada a visita de João Batista Figueiredo, o presidente da república, prevista para o dia 30 de novembro do decorrente ano. Jorge Bornhausen, na condição de governador, deu início aos preparativos para sua recepção, mandou fazer faixas com os dizeres “João, o presidente da conciliação”, que seriam expostas por onde o presidente deveria passar. Camisetas foram confeccionadas para que estudantes e funcionários públicos usassem durante o festejo e uma canção foi encomendada ao compositor Luiz Henrique em sua homenagem, intitulada como “Samba da Conciliação”. Seguindo esta preparação, uma placa de bronze em homenagem aos 90 anos da proclamação da república foi enviada pelo presidente Figueiredo para ser exposta na praça 15, local de sua recepção. Era homenagem ao patrono da cidade, Floriano Peixoto, fato visto como ofensa no dia da revolta.
No entanto, em meio a tanto trabalho do governo e de seus parceiros políticos, havia a oposição. Estudantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Santa Catarina, presidido pelo estudante de direito Adolfo Luiz Dias, planejavam para o mesmo dia uma grande manifestação contra os gastos exorbitantes com os preparativos da visita da presidência, e também contra a ditadura militar, que afundava a vida dos trabalhadores com uma inflação que não parava de subir.
Algumas medidas de Figueiredo vieram somar este motim, semanas antes de sua visita, houve um aumento de 26,9% no preço do leite, a gasolina subiu 22,6% e a energia elétrica 55%, esta porcentagem foi o suficiente para somar ao custo de vida da população mais 3,98% nas contas mensais. O preço da gasolina deixou os taxistas revoltados, em quase todas as cidades fizeram greve.
No dia 30 de novembro, o presidente chegou em Florianópolis, no aeroporto Hercílio Luz, onde foi recepcionado pelo governador Jorge Bornhausen e algumas autoridades locais. Durante o percurso, o povo vibrou com sua passagem. De acordo com Miguel (1995, pg. 27), “dos lados das pistas, estudantes de escolas primárias, devidamente organizados com camisetas ‘João, o presidente da conciliação’, acenavam bandeirinhas e saudavam Figueiredo”.
Enquanto isso, a praça 15 foi panfletada com palavras de ordem contra a ditadura militar e o arrocho salarial. Às 10 horas, o presidente e toda sua comitiva chegaram ao Palácio Cruz e Souza, onde foi acolhido por todas as lideranças arenistas e pelo povo, que o esperava em massa, não demorou muito e eclodiu a revolta.
As faixas foram levantadas e as frases prontas ouvidas pelas autoridades, algumas medidas foram tomadas a fim de acabar com a manifestação: a Polícia Militar, sem sucesso, fez cerco para dispersar o tumulto e nos alto-falantes a música Samba da Conciliação foi reproduzida. Todas as formas de pôr fim ao protesto foram ineficientes e, no momento em que Figueiredo chegou à sacada para fazer seu discurso, a vaia tomou conta da praça. As únicas palavras a serem ouvidas eram: “É mentira”. Para piorar a situação, o presidente fez um gesto de OK. Para os brasileiros, esta expressão possui conotação obscena, gerando assim mais violência.
A placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto foi arrancada do local em que estava, pois, para o povo, Floriano era responsável pela chacina na Fortaleza de Anhatomirim, no ano de 1894. Mesmo diante deste imprevisto, a comitiva presidencial manteve a rota prevista para a visita, indo embora apenas no fim de seu percurso.
Logo após a decolagem do avião do presidente, Bornhausen fez uma declaração. Conforme Miguel (1995, pg. 52), “quem fez a manifestação assume a responsabilidade por seus atos”. O resultado deste motim estabelecido contra a autoridade presidencial surtiu efeito momentâneo, e alguns estudantes foram presos, sete no total.
Passados alguns dias da prisão, aconteceu um ato público pela liberação dos estudantes, uma adesão com 20 mil assinaturas foi entregue ao governador, pedindo também o não enquadramento destes na Lei de Segurança Nacional.
Este fato histórico ocorrido em Florianópolis trouxe o desgaste do regime autoritário militar, dando ênfase ao posterior movimento das Diretas Já, um momento histórico e significativo na política catarinense e brasileira. Uma agitação igualmente democrática, ocorrida entre os anos de 1983 e 1984, que reivindicava eleições presidenciais diretas no Brasil. Este foi um movimento importante para a redemocratização do Brasil, pois em 1989, através da aprovação da Constituição Federal de 1988, houve eleição direta para a presidência da república, era o fim do Regime Militar, o sonhado objetivo da Novembrada de 1979.
