As lendas antigas contam que todos, num determinado dia, têm um encontro com o diabo. Desse encontro depende todo o desencadeamento dos dias que restarem ao abordado.
Eis que, num inusitado dia, Lúcifer decidiu interpelar um professor. Escolheu um jovem, em início de carreira, no auge do entusiasmo e da esperança. Surgiu o aliciador durante o crepúsculo, horário propício para lançar a dúvida, afinal é a parte do dia em que a claridade não é suficiente para afirmarmos que ainda é tarde, nem escuro o bastante para dizermos ser noite. Em meio à encruzilhada, alcova predileta das incertezas, prostrou para aguardar sua vítima.
O pobre professor pobre dirigia-se à escola para ministrar sua primeira aula, quando se deparou com a imagem de um homem assustadoramente belo, o qual ergueu seu semblante no exato momento em que os olhos do educador avistaram aquela figura resignada.
– Que diabo você faz aí no meio da estrada?
A coincidência da blasfêmia fez Satanás sorrir com o canto da boca. Parecia um presságio alvissareiro, ao qual retorquiu imediatamente:
– Estava a lhe esperar meu caro Jonas. Como vai?
– De onde nos conhecemos?
– Eu conheço a todos e sei de todas as coisas.
– Então por que me pergunta o que já sabe?
A animosidade do interpelado endiabrou o decaído. Mas, disfarçando sua contrariedade, tergiversou: – Sou seu amigo. Quero o seu bem. Venho propor um trato. Eu sou o rei desse mundo e tudo está aos meus pés. Qualquer poder terreno me pertence. Posso fazê-lo homem de fama e fortuna caso aceite minha proposta. Desconfiado, porém curioso, o jovem perguntou qual era a tal proposta.
– O que te peço meu jovem é muito simples. Quero que na sua jornada, hora iniciada, você minta.
– Mentir?
– Sim. Minta. Minta aos seus alunos. Diga a ele que o mundo está perdido. Que os homens são desonestos e injustos. Há guerras nos quatro cantos do planeta e só o ódio impera. Minta ao dar-lhes a certeza de que não existe mais esperança.
O sol ficará mais quente e derreterá as geleiras. Os países serão inundados por tsunamis colossais. A água potável esgotar-se-á. A humanidade morrerá de sede, de peste ou de fome. Minta que enquanto o cataclismo não ocorre, eles serão explorados pelo capital. Ficarão velhos e pobres, usurpados de seus direitos, se sobreviverem a escalada de violência. Lentamente, a face bela do anjo mal vai tomando formas horripilantes, enquanto prossegue o seu plano diabólico. – Minta que o conhecimento não é para todos. Minta ao reprovar seus alunos implacavelmente ou a aprová-los sem qualquer critério. Minta para seus colegas. Diga que os alunos são insuportáveis. De que nada adianta planejar aulas diversificadas.
Eles não querem nada. E tampouco vale a pena tanto esforço para tão pouca remuneração. Faça greve e crie inimizades com os colegas que não te acompanharem. Depois de um tempo, abandone os movimentos dando as mesmas desculpas esfarrapadas dos que antes não te acompanhavam. Quando estiveres farto do inferno da escola – e os olhos do emissário da escuridão brilharam nesse instante – faça um mestrado e vá para os gabinetes ou para as universidades. Seja burocrata educacional e crie leis que oprimam seus antigos colegas. Obstaculize o ensino com inúmeras exigências. Convença os governos de que não existem recursos para melhorar salários ou realizar reformas estruturais significativas.
Nas universidades seja arrogante. Dê aulas enfadonhas e diga que não existem receitas para a educação. Faça o aluno crer que pouco adiantou ter frequentado às aulas. Reforce a certeza de que se ele quiser aprender algo, não será ali.
Dissemine o desânimo e persuada os melhores a procurarem outras áreas. Deixe na sua sala somente aqueles que não têm competência nenhuma para ensinar, os quais possam dar sequência a minha obra. Minta professor, minta, minta…
Parecendo estar num transe provocado por este minta entoado em forma de mantra, o jovem professor já iria apertar as garras do transfigurado príncipe das trevas, quando num despertar inesperado questionou:
– Que garantia tenho de que, ao fazer todas estas coisas, serei famoso e afortunado? – Dou-lhe a minha palavra de honra. O jovem riu. – Que honra existe em fazer o que me propõe? Isso já ocorre desde os primórdios e nem por isso vejo os educadores em boa sorte. Aliás, os que seguem tais preceitos são os mais infelizes. O sombrio ser virou literalmente o capeta. Riu desdenhosamente e vaticinou: – Não levará muito tempo e você será um dos meus. E o que é melhor, virá voluntariamente. O jovem mestre da luz seguiu seu caminho. Foi dar sua aula. Passado tanto tempo, não se sabe de que lado o professor está hoje, mas é possível afirmar que muitos ainda seguem na escola o caminho do bem, semeando a verdade de que um mundo melhor é possível. A esses, todo dia é dia do professor!
