Nossa geração dos anos 80 e 90 já parou pra pensar que somos a última? Um dia desses relembrando a infância, em que as brincadeiras varavam as noites de verão, cheias de crianças na rua brincando de pique-esconde, pega-pega, livres, despreocupadas, suadas, com uma alegria sem igual. Os pais onde estavam? Em frente às casas, conversando com os vizinhos, socializando de verdade, olho no olho, aperto de mãos, risadas e piadas aleatórias, com algumas piscadelas às crianças para ver se estava tudo bem, leve assim. Afinal, que perigo teria estar na rua aquela hora (22 horas). Somos todos amigos e conhecidos. Está bom aqui, no ar fresquinho da rua.
Era chegado então o fim de semana. Ah, sim o fim de semana. Era dia de sítio, que alegria! Dia de andar a cavalo, procurar os ovos que as galinhas colocaram ao redor da casa, brincar campo afora, correr atrás dos terneiros, e por fim dar uma passadinha para jogar farelos aos peixes do riacho. Sim, dias cansativos. Algumas vezes com um arranhão aqui, um machucado acolá, quando o tombo era feio rolava até uns pontos. Sabe como é, criança sem cicatriz é criança sem história pra contar. Gabavam-se os pais após o susto.
Os anos foram passando, e com eles as novidades foram chegando. A tecnologia, os videogames, que eram bem legais, mas brincar na rua ainda era preferência nacional. Vieram os computadores, os celulares, que até então era coisa de “gente grande”. Legais, mas ainda preferia andar de bicicleta e arriscar o skate. A rua ainda era forte concorrente.
Com certeza a tecnologia não deixaria barato, então foi aprimorando-se e evoluindo. Está ficando interessante. Esse tal de Atari é legal mesmo, mais evolução. Preciso vencer o Copa, salvar a princesa e vencer no super Mario Bros. Anos passaram-se. Era hora de nós termos os nossos celulares, nossos computadores. Já somos “gente grande”. Agora nossos filhos estão na evolução dos videogames. E olha só como as coisas mudaram. Eles também têm seus próprios celulares e computadores. Não, não é mais coisa de gente grande. Agora é necessário, para acompanhar a tecnologia, e por segurança.
Já são 22 horas, nossos filhos ainda estão na rua. Celular pra que te quero. Passo um whats. Ufa, está tudo bem. Volto para socializar com os meus amigos, agora com um toque diferente do aperto de mãos, é o toque na tela, para “curtir”, “amar”, ou reagir com um “uauu”. É verão, é de noite, o ar lá fora é fresquinho, mas agora é perigoso. As crianças estão em casa, vidradas em seus Imacs, Ipods, Ipads, “Itudo”, brincando por ali mesmo. Será que ali também tem pique-esconde e pega-pega? Acho que o tal de visualizar e não responder é o novo pique-esconde. Ainda tenho minhas dúvidas.
A tecnologia é útil, é inovadora, podemos personalizar, a ponto de termos um mundo só nosso, tão nosso, que o mundo real fica por vezes distante. Não temos mais fins de semana no sítio, noites de brincadeiras na rua. Assusta-me perceber que fui criada em meio aos animais, e minha filha deu seu primeiro toque em um boi aos 8 anos, com um olhar curioso e um toque amedrontado, como se fosse algo de outro mundo, o que na verdade é. Bois, terneiros, e galinhas não estão no mundo dela, não no real, só nos desenhos. E lá eles cantam, dançam e falam inglês. É a nova geração, nossas crianças, nosso futuro tecnológico.
Sim, fomos a última geração. Do toque, olho no olho, arranhões e machucados das brincadeiras da rua, do não uso de celular, dos dias no sítio, do jogo de taco na frente de casa, do futebol sem caneleiras e cotoveleiras, de conhecer todas as crianças do bairro pessoalmente. Uma geração de valor, uma geração do vou ali e já volto sem medo, uma geração que dá saudade.