Lembrar de Hercílio e Ferroviário sem citar América e Ourinhos é o mesmo que contar a história do maior clássico do futebol tubaronense pela metade. O América era todo o Hercílio Luz, o Leão do sul, porém, em miniatura – Já o Ourinhos, na mesma e boa dimensão, representava em tudo o E.C Ferroviário, o rubro-negro de Vila Oficinas. A única diferença dos profissionais dos dois times para aquela garotada era que os meninos jogavam com os pés descalços, sem medo das rosetas e dando topadas em touceiras. Logo, nunca usando tênis nem chuteiras, os pares de meia, para eles, tornaram-se peças dispensáveis para a prática do futebol.
De um lado, no caso colorado, estava a abnegação do Ico Farias, com seu tratamento impecável aos uniformes, todos caprichosamente passados a ferro e guardados num rancho de madeira, nos fundos da casa, ambiente exclusivamente construído para este fim. Lá, enfileirados, um a um, em duas longas prateleiras, reluziam os novíssimos conjuntos de camisas e calções vermelhos e brancos. A imagem fazia brilhar, como nunca, os olhos daquela garotada de até 12 anos. É que eles sabiam que iam usar aquele material no domingo seguinte, pela manhã, e viviam sonhando com aquele momento (quanta ansiedade! As noites de sábado eram, certamente, sempre as mais longas).
Na pequena e única parede vazia que sobrava daquele rancho, bem ao lado da porta de entrada, meio esvoaçantes, vários recortes de jornais fixados com grude, uma cola caseira muito usada na época, chamava atenção. Eram reportagens que exaltavam os grandes feitos do Hercílio Luz FC, tanto os recentes como os antigos. E, numa moldura, com vidro e tudo, logo acima, a foto histórica do Leão bicampeão.
Não faltava, também, perto da janela lateral, um grande distintivo do América do Rio, quase do tamanho de uma tampa de panela normal; simpático emblema do clube carioca que foi a fonte de inspiração do nome do time. Aliás, América é o mais comum dos nomes de times de futebol em todo o Brasil – São 35. Pelo mundo, também há vários Américas.
Na mesma casa, lá nos fundos, numa revessinha de sol, antes de cada jogo acontecia a famosa “preleção”, ou seja, a última conversa tática e educativa do treinador Ico com os seu “atletas”. Ali mesmo, se dava, também, a concorrida e tão esperada distribuição das camisas dos titulares. Dos onze selecionados, quem sobrava, chorava e chorava muito, mas era imediatamente consolado pelo próprio dono do time.
Um dos caprichos do metódico servidor ferroviário Ico no tratamento com a garotada era a de não permitir, de jeito nenhum, que chamassem nomes (palavrões) antes ou durante os jogos e treinos. Quem teimasse em ser malcriado, saía logo do time.
Do outro lado, o vermelho e preto, sobravam – e como sobravam! – a paciência, atenção e o carinho do mestre Sabino – José Sabino dos Santos -, um cidadão que não se continha em felicidade ao ver entrar em campo aquele eufórico grupo de meninos-atletas do seu Ourinhos FC, cada um impecavelmente trajado em camisas e calções iguaizinhos às vestimentas do “Ferrinho”, o seu time do coração e clube mais popular da cidade. Tudo, também, absolutamente idêntico ao famoso Flamengo do Rio de Janeiro. Uma paixão rubro-negra, acima de tudo!
Minutos antes do jogo, a cada camisa entregue era um largo sorriso aberto do Mestre e, mais ainda, é claro, do serelepe pupilo, este que, ao receber o seu “manto sagrado” corria logo para o meio do campo, saltitando, numa alegria incontida.
Dava gosto ver o bom Sabino naquele estágio de satisfação, sabendo vê-lo, também, reconhecido por todos como um grande descobridor de talentos. E não era para menos: do seu Ourinhos saíram vários craques para o Estado, Brasil e o Mundo. Um desses foi Zenon, o mais conhecido futebolista de Tubarão. Zenon, que, por conta do destino, nunca jogou no EC Ferroviário, onde muito atuou seu irmão Lado; e foi profissionalizar-se justamente no rival Hercílio Luz. Coisas do mundo da bola!
Muito identificado com o popular bairro de Oficinas, o Time do Sabino bem pouco saía de lá, fosse para jogos ou treinos. Gostava mesmo era de jogar no bom campo do E.C Noroeste, localizado nos fundos da Vila dos Ferroviários. Sentia-se muito em casa, também, quando atuava no vizinho estádio Monumental da Vila e, principalmente, em festivos dias de Ferro-Luz. No campo do Ferrinho as partidas aconteciam logo depois do meio dia, com o sol a pino, antes dos jogos entre aspirantes das duas agremiações profissionais. No veterano Campo do Hercílio, o Ourinhos também se apresentava e, igualmente, em ocasiões do grande clássico da cidade.
E dia de clássico, na Vila ou no Anibal Costa, era dia de jornada de gala. Era, também, o da realização do sonho de qualquer menino tubaronense daquela época: atuar num campo de gente grande, às vistas dos mais fanáticos torcedores dos dois principais times da cidade. Vencer, nesse caso, já não era o principal; o importante mesmo era jogar no gramado oficial, onde todo domingo desfilavam seus maiores ídolos e, de lá de dentro, terem o saboroso gostinho de participar de um jogo “oficial”. E que jogo!
Eram os sonhadores garotos americanos querendo ser o irreverente e ágil goleiro Bateria, o elegante Pedrinho, o hábil “Diabo Loiro” Galego ou o goleador Gonzaga. Do lado do Ourinhos, não faltava quem se dissesse ser o valente Tito, um artilheiro igual ao Bracinho, um driblador tal qual o Bóris ou um “capetinha” como o Norzinho.
Com tanta semelhança e exemplar organização, os times do América e Ourinhos tiveram das duas torcidas a mesma atenção que davam aos profissionais; tanto, que a emoção do clássico Ferro-Luz crescia muito desde cedo, tão logo os meninos do Sabino e do Ico entravam em campo.
