
Rafael Andrade
Tubarão
Luciana Gonçalves, gerente de uma loja especializada em pijamas, camisolas e lingeries, bem em frente à Quevedo Joalheria e Ótica, no Farol Shopping, na Vila Moema, em Tubarão, presenciou uma das ações mais audaciosas do ano na região, um assalto à mão armada registrado ontem. O crime ocorreu exatamente às 13 horas e o alvo era a joalheria, que já havia sido mirada por criminosos em outras oportunidades.
Muitos funcionários e clientes do empreendimento, o maior da Amurel, ainda almoçavam na praça de alimentação, que fica bem próxima da Quevedo, invadida por dois ladrões armados. Os dois não entraram juntos, um deles circulava pelos corredores vestido com um moleton, cachecol e boné, e não estava frio no momento do crime, o que chamou a atenção imediata de alguns lojistas e dos seguranças (que não andam armados no Farol Shopping, justamente para evitar confrontos e tiroteio, já que é um abiente de ampla e constante circulação de público – o que poderia acarretar em feridos e até mesmo mortes). Primeiro eles entraram no estabelecimento e anunciaram o roubo. Estavam com uma grande sacola nas mãos, que foi preenchida rapidamente pelas vítimas. Uma testemunha disse que alguns clientes chegaram a discutir com a dupla durante o ato. Foi quando saíram para o corredor e ainda debateram com um segurança.
“Foi uma cena de cinema”, resume José David Pereira Júnior, que tomava um sorvete a poucos metros da cena do assalto. Ele se refere aos tiros disparados na vitrine da joalheria segundos antes da fuga. “Foram momentos de muita correria e pânico de muitos colegas. Eu estava tranquila, já que tinha passado por situações até piores quando trabalhava em um comércio em Criciúma. No fim da ocorrência, tentei tranquilizar minhas colegas, que chegaram a chavear a loja”, lembra Luciana.
Os dois bandidos aparentam ser jovens entre 20 e 30 anos (conforme imagens de vídeo de segurança divulgado ontem nas redes sociais do Notisul e no site do jornal), e também con forme relatos de testemunhas. Ninguém se feriu. Os ladrões fugiram em umamotocicleta prata, que estava estacionada na avenida Marcolino Martins Cabral, bem próximo do principal acesso ao shopping.
Moto foi abandonada
A Polícia Militar de Tubarão foi acionada e chegou rápido ao local. Saiu na busca dos ladrões. Os militares recuperaram a motocicleta utilizada na fuga. O veículo estava próximo de um condomínio residencial nas proximidades da linha férrea, entre os bairros Recife e Passagem. A moto foi entregue na Central de Plantão Policial (CPP). O delegado Danilo Bessa Brilhante deve comandar as investigações. Algumas imagens gravadas por câmeras de monitoramento do Farol Shopping e de comércios e residências nas proximidades do empreendimento devem ser solicitadas pela polícia. O crime foi um dos mais comentados na internet ontem. “Onde nossa sociedade vai parar. Daqui a pouco precisaremos ficar presos em casa”, resume uma tubaronense.
Estatuto do Desarmamento civil volta à pauta com assalto em shopping
“O que pode parar um homem mau com uma arma? Certamente um homem bom com uma arma. No Farol Shopping, os seguranças trabalham desarmados e o fato de não haver cidadãos de bem com uma arma na cintura no momento do assalto deixou todo mundo suscetível a este tipo de ação! Duvido que haja uma situação assim se não tivessem retirado o nosso direito à defesa”, escreveu o leitor do Notisul e seguidor da Fan Page do jornal, Rafael Souza, em um dos comentários no Facebook, ontem, que mais atiçou o debate entre os internautas.
No Brasil, o Estatuto do Desarmamento é uma lei federal que entrou em vigor no dia seguinte à sanção do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se da Lei 10826, de 22 de dezembro de 2003, regulamentada pelo decreto 5123 de 1º de julho de 2004 e publicada no Diário Oficial da União em 2 de julho de 2004, que “dispõe sobre registro, posse e comercialização de armas de fogo e munição (…)”. Começou a vigorar no dia 23 de dezembro de 2003. O artigo 35 foi rejeitado em um referendo no ano de 2005, o artigo 35 proibia a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional.
A necessidade de regulamentação do estatuto ocorreu a fim de aplicar alguns de seus artigos, como, por exemplo, o teste psicotécnico para a aquisição e porte de armas de fogo, marcação de munição e indenização para quem entregar sua arma, e foi elaborada com publicação na Internet durante 15 dias, de modo que a população pudesse enviar suas sugestões, além de audiência pública. Após o decorrer de três meses e meio, o texto proposto foi recebido pelos ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e da Defesa, José Viegas, à época.
A lei proíbe o porte de armas por civis, com exceção para os casos onde haja necessidade comprovada; com duração previamente determinada e sujeita o indivíduo à demonstração de sua necessidade em portá-la, com efetuação de registro e porte junto à Polícia Federal (Sinarm), para armas de uso permitido, ou ao Comando do Exército (Sigma), para armas de uso restrito, e pagar as taxas, que foram aumentadas. Um exemplo dessas situações são as pessoas que moram em locais isolados, que podem requerer autorização para porte de armas para se defenderem. O porte pode ser cassado a qualquer tempo, principalmente se o portador for abordado com sua arma em estado de embriaguez ou sob efeito de drogas ou medicamentos que provoquem alteração do desempenho intelectual ou motor.
Somente podem portar arma de fogo os responsáveis pela garantia da segurança pública, integrantes das Forças Armadas, policiais civis. Desde a implementação em 2003, o Estatuto do Desarmamento foi alvo de quase uma dezena de tentativas de alteração por meio de projetos no Congresso Nacional. “Revogar o Estatuto é uma proposta não só reacionária, mas completamente desvinculada de qualquer critério técnico, porque todos os dados, evidências, mostram que mais armas significam mais mortes”, defende o vice-presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima.