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Bendito Nelson Cavaquinho

 

Em tempos de carnaval, nada melhor do que lembrar um dos nossos grandes artistas, Nelson Cavaquinho, cuja morte completa 26 anos neste sábado, 18 de fevereiro.
 
Com mais de 600 composições no repertório, ele tinha uma maneira estranha de tocar – apenas com o polegar e o indicador e sempre com o instrumento quase na vertical. Criava de madrugada, nas mesas dos bares, com o violão e um copo de cerveja ou cachaça. Seu mais constante parceiro, com quem compôs diversos clássicos da música brasileira, foi Guilherme de Brito, uma pessoa com um estilo de vida completamente oposto ao do boêmio Nelson. 
 
Feliz cantando a infelicidade, alegre exaltando a tristeza, o carioca de São Cristóvão freqüentava os redutos de samba, principalmente na Mangueira, onde se fez amigo de Cartola e iniciou-se na arte de criar sambas.
 
Suas músicas são de uma simplicidade impressionante, como somente os grandes gênios conseguem fazer. Não há um verso ou nota a mais que o necessário, como se pode ver em Folhas Secas: “Quando eu piso em folhas secas / Caídas de uma mangueira / Penso na minha escola / E nos poetas da minha estação primeira”; ou em A Flor e o Espinho: “Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor/ Hoje pra você eu sou espinho/ Espinho não machuca flor / Eu só errei quando juntei minh´alma à sua / O sol não pode viver perto lua”.
 
Profeta dos desenganos, arauto das desilusões, menestrel da angústia, refletia o eterno pavor da morte nas letras doloridas de seus sambas, nos dramas de seus personagens, nas inquietudes de suas musas. “Faço músicas para tirar as coisas de dentro do coração”, dizia. Sua voz rascante, lixada pelo líquido de um milhão de botequins, fluía acompanhada pelo som beliscado das cordas feridas por apenas dois dedos.
 
Nelson Cavaquinho era capaz de no final de uma madrugada distribuir todo dinheiro ganho em um show pelos mendigos e prostitutas, ficando até mesmo sem ter como pagar a condução de volta para casa. Totalmente desapegado de bens materiais, vendeu músicas e parcerias para sobreviver nos momentos mais difíceis. Por isso, sua lista de seus “parceiros” revela dados curiosos, como o nome do quitandeiro que lhe vendia fiado ou o dono do bar onde devia dinheiro. Outro de seus mais constantes “parceiros” é César Brasil, proprietário de um velho hotel no centro do Rio e incapaz e compor um verso ou tocar uma nota.
 
O romantismo, movimento que surgiu no final do século 18 e perdurou pelo primeiro quarto do século 19, era dominado por sentimentos excessivos que geralmente ignoravam as restrições morais. A violência desses sentimentos levava seus personagens a viver à margem da sociedade, seguindo apenas seus instintos e adotando hábitos autodestrutivos, como o abuso de drogas, o que levava fatalmente à autodestruição. Vem daí o mito, e não é nada além de um mito, de que o gênio criador é estimulado entre indivíduos mergulhados em ambientes de insanidade, crime, violência, miséria e melancolia. 
 
Daí porque costuma-se usar o epíteto “maldito” para qualificar artistas que mantêm um estilo de vida que pretende dissociar-se de uma sociedade por eles considerada como alienante e que aprisiona os indivíduos nas suas normas e regras.
 
O primeiro a utilizar a expressão “poeta maldito” foi Alfred de Vigny, em 1832, mas foi Paul Verlaine quem a popularizou em uma série de artigos intitulado “Les poètes maudits”. Exemplos típicos são Tristan, Mallarmé, Byron, Baudelaire,
 
Verlaine, Rimbaud, Lautréamont, mais modernamente Bukowski, entre outros.
 
Bendito Nelson Cavaquinho, nosso poeta maldito.
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