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Berço Esplêndido, mas não tanto

O convite para um encontro com colegas do Colégio São José, a turma de formandas do curso normal de 1964, foi um bom pretexto para visitar Tubarão, a minha cidade natal, reencontrar colegas que não via há mais de 40 anos, matar saudade de um tempo que já vai longe e abraçar as amigas de todo o sempre, Márcia, Regina e Maria Elisa, partes da minha vida desde a meninice. Geração dos anos 60, aquela que, mesmo ali na pequena Tubarão, distante dos centros culturais do Brasil, também acompanhava as mudanças comportamentais que revolucionou a década dos anos dourados. 
 
Por isso, não foi surpresa ouvi-las falar e discutir calorosamente a favor da corrente de manifestações populares que aconteceram por todo o Brasil e que no último dia 20 de junho, marcou profundamente os limites entre o país real e o  de mentirinha, a ‘Ilha da Fantasia Brasília’ – a capital federal. Os centavos do propalado aumento do transporte público foram a gota d’água para os que foram às ruas protestar contra o abuso de poder, os desvios de dinheiro, gastos públicos exorbitantes, os mais de 27 bilhões de reais desembolsados na realização da Copa das Confederações e o orçamento superestimado da Copa do Mundo, superior à soma das últimas Copas.
 
Depois das “Diretas Já”, em 1983 e 1984, um dos movimentos de maior participação popular da história do Brasil e do movimento estudantil dos “Caras Pintadas”, que há 21 anos atrás forçou o Congresso Nacional a aprovar o processo  de impeachment de Fernando Collor de Mello, agora era a vez da “geração shopping e das baladas”, a “geração internet” , sempre conectada e dependente dos smartphones, parecendo viver desligada do mundo real, a “geração do milênio” tida como despolitizada, deu o maior exemplo de cidadania e ganha as ruas do Brasil para expor o seu descontentamento geral com o momento político e social do país. Uma juventude que não tem medo de expressar as contradições da sociedade, de jorrar a sua insatisfação em faixas, cartazes, bandeiras apartidárias, de soltar a voz conclamando a todos com gritos de ordem: “Vem pra, rua vem”. “Queremos saúde padrão Fifa”. “Nem direita, nem esquerda. Somos Brasil”. “Saímos do Facebook”.
 
O engajamento da juventude emociona a todos, há uma inquietude, um desassossego coletivo no emprestar apoio e participar do movimento que lavou a alma do povo, fez o país tremer ecoando pelo mundo afora. “O que ninguém esperava é que esses jovens tidos pelos estereótipos como os mais alienados seriam justamente aqueles capazes de ‘acordar o gigante adormecido’ e de devolver ao país o ânimo de poder mudá-lo. E isso sem a máquina do estado, sem a cobertura dos sindicatos, dos partidos, nem das organizações sociais. Apenas com a internet”, escreve Zuenir Ventura, na crônica ‘Protesto sim, arrastão não’, publicada no jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Tenho mais é que concordar com o escritor Zuenir Ventura porque a origem dos protestos está nas redes sociais que deram a palavra de ordem: basta! Saíram do facebook e tomaram as ruas do Brasil. Algo de surpreendente está abraçando o país de forma apaixonante e, ao mesmo tempo, assustadora por sua capacidade de mobilizar, por sua energia pura que nos incendeia e nos faz refletir sobre a grande nação que dormia tranquila em “berços esplêndidos”, embalada por ventos da mudança que trouxeram a estabilidade econômica maquiada, ascensão social engrossando a classe média e muitos programas de inclusão social que respondem por nomes milagrosos: “bolsa família”, “cesta básica”, “minha casa, minha vida”, “vale cultura”…
 
Este Brasil, “deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, […]”, cantado no hino nacional, já não se deita em berços tão esplêndidos como poetizou Joaquim Osório Duque Estrada, o autor.
 
Este é o Brasil de uma geração que nasceu na democracia, na vivência plena da liberdade, da cidadania. São os filhos desta grande nação que não fogem à luta, “nem teme quem te adora à própria morte”. Arremato, voltando ao encontro com a minha turma do São José. O sábado, 22 de junho, invernal e ensolarado marcou aquele dia de tantos afetos, saudade afagada e ideais partilhados à luz de mudanças tecidas em praça pública por nossos filhos e netos. Voltamos ao aconchego familiar, cientes de que esta luta também é nossa. Somos a juventude de 1964, que não se verga diante de uma realidade que põe em risco o nosso estado de direito. Despedimos-nos ao cair da tarde, com o sol tingindo de vermelho o céu da “Cidade Azul”, enquanto o rio Tubarão irrequieto e caudaloso, a dividir e unificar o espaço com a arte de suas inúmeras pontes, seguia o seu curso serpenteando ligeiro pelas verdes e férteis planícies de seu imenso vale, lembrando as telas fascinantes do mestre da pintura catarinense, Willy Zumblick. Hora de regressar. Atravessei a ponte com o coração aos pulos por divisar um grupo de jovens tubaronenses fechando a BR-101, a rodovia que une o litoral brasileiro de norte a sul,  protestando  na terra da Anita Garibaldi. É a rapaziada da minha terra, nela deposito a minha fé.
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