Há um mito segundo o qual ser justo é tratar todos os liderados da mesma forma. Tal assertiva decorre do fato que a maioria dos chefes precisam evitar a qualquer preço o desconforto do conflito que pode advir, quando tratam pessoas diferentes de forma desigual, preferindo acreditar que tratar todos da mesma forma seja a liderança politicamente correta.
O líder que assim pensa, isto é, que trata a todos da mesma forma, passa a ser injusto quando ignora as qualidades e as diferenças entre as pessoas, mesmo aquelas relativas ao mérito individual.
Na verdade é uma falácia afirmar que somos todos vencedores, sem levar em conta como cada um se sai no desempenho de uma tarefa e quais as aspirações de cada um.
Ora, se o papel do líder é ajudar os liderados na difícil tarefa da superação profissional e pessoal, seria um erro pensar que fazendo vistas grossas, estaria ajudando, muito pelo contrário, estaria induzindo a acreditar estar no caminho certo.
Há algum princípio de justiça tratar um desempenho baixo com as mesmas recompensas dadas a quem tem excelente rendimento?
“Devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade” (Aristóteles, filósofo grego, 384 a 322 aC.).
Sob esse viés, o líder precisa ser justo. Seria injusto, contudo, caso trate os iguais de um mesmo grupo, levando-o a um sentimento de descontentamento e desconfiança. Os que se encontram em situações semelhantes devem ser tratados da forma iguais.
O importante para a satisfação dos liderados não é que o líder se considere justo, visto que isso é a sua própria percepção, mas que o liderado o veja como tal.
Neste contexto, sempre que as ações do líder forem no sentido de punir ou de premiar deverá pensar no melhor modo de fazer com que os critérios selecionados sejam considerados equitativos e justos.
A percepção de justiça é bastante difícil e, para que isto ocorra, o líder precisa contar com indicadores objetivos que justifiquem os critérios da decisão, pois somos mais benevolentes e compreensivos ao analisar as nossas próprias falhas do que as dos outros. Neste caso, as dos liderados.
Entretanto, um dos maiores erros que os líderes cometem constantemente é deixar de dar a mesma atenção aos profissionais mais experientes, concentrando-se quase que totalmente naqueles que ainda precisam ser orientados e desenvolvidos por não estarem aptos a executar as atividades com a adequação exigida, sendo pegos de surpresa quando um liderado com mais experiência pede para não fazer mais parte do quadro de funcionários da empresa, normalmente pelo ego ferido.
Tive a oportunidade, em algumas ocasiões, de ouvir um excepcional palestrante e empresário, que prefiro omitir sua identidade. Ele contou que tinha dois filhos: um saudável, inteligente, intelectual, que recebia pouca atenção pois era muito capaz e aprendia tudo sozinho. O outro nasceu com um sério problema de saúde e teve muitas dificuldades na infância e na juventude. Para este todas as atenções da família, vizinhos e amigos estavam voltadas. Conta o palestrante que certa vez indagou ao filho saudável: “como gostaria de ter nascido?” Imagem qual foi a resposta: “pai eu gostaria de ter nascido doente”.
Diante desta perspectiva, antes de liderar outrem o líder precisa liderar a si mesmo, pois ninguém brilha no palco do mundo se não brilhar no palco da sua inteligência, pois na difícil tarefa de conduzir liderados da plateia ao palco, o líder necessariamente vai se deparar com uma situação muito incômoda: ser justo tratando os desiguais de forma desigual ou, injusto tratando todos da mesma forma. O que você prefere?