A eleição para presidente do Senado e do Congresso Nacional traçou um hiato claro entre o desejo do povo e o resultado da votação que elegeu como presidente o senador Renan Calheiros. Ao desenhar o prédio do Congresso Nacional, Oscar Niemayer configurou o plenário do Senado debaixo de uma concha invertida. Desejou, com isso, configurar uma casa serena e reflexiva, capaz de rever, com equilíbrio e bom senso, as decisões explosivas da Câmara dos Deputados.
Mas, nesta eleição do último domingo, a cúpula do Senado revelou uma nova função, não prevista pelo mais importante arquiteto brasileiro: a da surdez. O resultado da votação demonstrou claramente uma rejeição aos clamores populares de mudanças.
O Senado revelou absoluta insensibilidade aos apelos veementes da população. Manteve-se fiel à política velha que Ulysses Guimarães chamava de ‘velhaca’. Mais que o compromisso com a mudança, valeram os favores, as pressões, o toma-lá-dá-cá; tudo aquilo que foi condenado nas manifestações e que vem sendo repelido em massa por mensagens do povo nas redes sociais.
Fui lançado como candidato por um grupo expressivo de partidos e senadores que repudiam essas práticas do passado, deixando bem claro que o presidente do Senado, que é ao mesmo tempo o presidente do Congresso Nacional, não deve transformar-se em pedinte de cargos de ministros e, menos ainda, de dirigentes de estatais, como Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica.
Assim agindo, torna-se subserviente ao governo; fica sem autoridade para uma relação de harmonia e independência, como estabelece a Constituição Federal.
Sou do PMDB. O partido tem vários ministros e muitos diretores de estatais. Mas, nenhum desses indicados foi discutido comigo, nem com os demais senadores e deputados. Sem entrar no mérito das pessoas indicadas, foi uma decisão isolada do presidente do Senado e de um grupo fechado da cúpula partidária.
Quando fui presidente do partido, o PMDB decidiu apoiar o governo do presidente Fernando Henrique. Coube-nos indicar três ministros. Como procedi? Convoquei os senadores e deputados, para, em uma decisão coletiva, às claras, fazerem as indicações, que recaíram em Nelson Jobim para a Justiça; Odacir Klein para a Infraestrutura e Cícero Lucena para a Integração Nacional.
Hoje, as indicações são feitas por quem não deve indicar: o presidente do Congresso Nacional.
Fui candidato a presidente para combater essas práticas, para democratizar as decisões do Senado e para fazê-lo protagonista das reformas política, fiscal e tributária, que estão engavetadas há umas duas décadas.
Obtive 32 votos (anularam 1) sem negociar nada; sem oferecer nada; sem trocar nada. Por isso me considero vencedor. Vencedor porque as milhares manifestações na Internet apoiaram o meu discurso, a minha proposta e vem condenando a decisão do Senado.
Isso me dá alento para continuar lutando, resistindo. Goethe nos ensinou que “é fácil matar o monstro; difícil é remover-lhe as entranhas”. Pois as entranhas do autoritarismo, do fisiologismo, da barganha continuam sendo mantidas por uns poucos nos corredores do Senado Federal.
Fui derrotado? Não! Fui vencedor, porque combati o bom combate. Como dizia Sepé Tiaraju: “a vida é combate, que aos fracos abate; aos bravos, aos fortes só pode exaltar!”
