O povo nas ruas, de cara pintada com as cores verde e amarela, e gritando ‘fora Collor’, em 1992, impulsionou o impeachment de um Presidente da República (Fernando Collor de Melo), acusado de corrupção. Passadas duas décadas, os corruptos estão bem mais astutos e avançam, com maior voracidade, nos cofres públicos. Ou seja, conquistou-se o objetivo, mas não se manteve.
Desta vez, a indignação popular transborda nas ruas contra os desmandos (roubo, desperdício e não prioridade na aplicação do dinheiro público, negociatas em prejuízo do povo, impunidade, incompetência etc.) E contra os péssimos serviços de saúde, educação e segurança, mesmo com elevados impostos, as conquistas serão mantidas ou em breve, terá que se retornar às praças para reconquistá-las?
A redução do valor das passagens em diversas cidades – pauta inicial dos protestos – será duradoura e o transporte coletivo brasileiro passará por ampla revisão ou em breve, as ruas gritarão que os preços estão altos e que os horários dos ônibus, os abrigos de passageiros, a lotação e os itinerários não atendem funcional e dignamente aos passageiros? Todos sabem que o transporte coletivo é solução para a mobilidade urbana, mas, depois de tantas pesquisas e simpósios, pegará, somente, ‘no tranco’ das ruas?
A melhoria dos serviços de saúde, educação e segurança e a varredura dos corruptos e incompetentes para fora dos poderes executivo, legislativo e judiciário – que na caminhada, entraram na pauta dos protestos – ocorrerá, e de forma permanente? Ou os tribunais vão continuar rejeitando contas de governos municipais e estaduais por não aplicarem o mínimo constitucional em educação e nada acontecerá, como nas contas de Tubarão (2011) e de Santa Catarina (2012)…
Ou, nas eleições do próximo ano, os políticos mal falados serão reeleitos e outros, ainda piores, sairão legitimados das urnas… Ou continuar-se-á considerando que usar drogas ‘é o maior barato’, quando são estas que financiam a violência?
Quer dizer, o Brasil melhor, justo e digno, expressado nas palavras de ordem, faixas e cartazes, durante os protestos que sacodem o país, exige mudanças permanentes de hábitos dos governados para mudar os dos governantes e vice-versa e, uso e/ou criação de mecanismos para que tais mudanças se institucionalizem. Na democracia, também conquistada nas ruas (Diretas Já, em 1984), há corresponsabilidades. Os governos não se autoimpuseram. São escolhidos pelo povo por meio do voto direto e secreto.
No ‘fora Collor’ aprendeu-se a conquistar os objetivos, agora é preciso aprender a ampliá-los e mantê-los. Duas frentes são fundamentais, com a mesma vitalidade – mas sem a violência – das ruas. Aprovação da reforma política, pacto federativo, royalties do petróleo para educação, mais recursos para saúde, punição dos condenados e acompanhamento dos três poderes, por meio dos obrigatórios portais da transparência e da lei do Acesso à Informação. Nos conselhos municipais de transporte público, de educação, de saúde, de segurança e outras questões relevantes. É nestes locais que se decide e se fiscaliza onde e como se aplica o dinheiro público.
