Início Especial Doença está cada vez mais feminina

Doença está cada vez mais feminina

Zahyra Mattar
Tubarão

Em 1989, Tubarão registrava o primeiro caso de Aids. Era em um homem. O segundo surgiu três anos depois, em 1992. Desta vez, a pessoa doente era uma mulher. Depois disso, não houve um ano em que o HIV não acometesse um número cada vez maior de pessoas. Hoje, 460 tubaronenses têm Aids.
Este número é apenas dos pacientes que já desenvolveram a doença. Para cada caso, há uma estimativa de que pelo menos outras quatro pessoas sejam soropositivas. Com isso, é possível afirmar com segurança que existem pelo menos 1.840 casos na Cidade Azul.

O que mais preocupa as autoridades em saúde hoje é a feminilização da doença.Do total de casos em Tubarão, 35% é de mulheres, independente da orientação sexual. Entre os homens, o percentual é de 65% dos casos. Isto equivale a dois homens com Aids para cada mulher com a doença. A média do estado é de 1,6 homem com Aids para cada mulher.

Quando a orientação sexual é considerada, a mulher heterossexual é a maioria dos casos. Nesta categoria, dos 225 casos, 120 (53,3%) são em mulheres, em sua maioria casadas. O restante, 105 casos (46,7%), é em homens.
A dificuldade em pedir para o parceiro usar o preservativo nas relações estáveis ainda é um tabu, e um risco. “O que falta é o diálogo aberto com o parceiro. Nós é que temos que confiar em nós mesmos. Aids mata. Amor próprio previne”, alerta a coordenadora do programa de DST/Aids na 20ª regional de saúde em Tubarão, Kallinka Mattos Gomes.

Uso de preservativos
A falta do uso do preservativo entre os heterossexuais, sejam homens ou mulheres, é ainda a maior forma de contaminação. Representa 48,9% do total de casos em Tubarão, hoje em 460.
Entre os homens, independente da orientação sexual, o mais preocupante atualmente é o uso de drogas injetáveis. Dos 77 casos de Aids transmitidos desta forma, 65 são masculinos (84,4%). Os outros (12 casos – 15,6%) são de mulheres. A contaminação pelo uso de drogas representa 16,7% de todos os casos da doença no município.

Faltam políticas públicas
A falta de inclusão abre uma lacuna quanto à prevenção da Aids. Sem políticas públicas específicas, homossexuais e travestis são dois dos grupos que mais evita buscar pelo exame. O motivo é o preconceito que sofrem.
“O constrangimento já começa em ter até o posto de saúde. Imagine chegar e pedir o exame do HIV? As travestis, na maioria, não vão. Os homens e mulheres gays omitem a orientação sexual para não sofrerem preconceito”, afirma a presidenta da Associação de Transgêneros da Amurel e Tubarão (Gata), Gabriela da Silva.
Gabriela considera que as profissionais do sexo mulheres previnem-se muito mais do que os travestis e garotos de programa. Do total de 460 pessoas com Aids em Tubarão hoje, 43 declararam-se homossexuais (42 homens e uma mulher).

A realização do exame ainda é um tabu

O preconceito é um dos desafios do país na tentativa de frear o avanço da Aids. Por mais que falar da doença tenha se tornado algo natural, a busca pelo exame ainda é uma barreira para a maioria.
Ninguém inclui o teste do HIV no check-up anual, por exemplo. A doença ainda é vista como algo distante. Tanto que os dados oficiais, seja em Santa Catarina ou em outo estado, versam sobre os casos de doentes e não de soropositivos (têm o vírus, mas não desenvolveram a doença ainda).

Uma das metas é justamente aumentar a oferta do exame, que é gratuito e feito sob absoluto sigilo. Mesmo quando há dúvida, as pessoas têm medo de descobrir que pode estar com o vírus. Esta atitude é um risco para si e para os outros”, alerta a coordenadora do programa de DST/Aids na 20ª regional de saúde em Tubarão, Kallinka Mattos Gomes.
Os profissionais de saúde também têm receio de oferecer o exame, especialmente porque a Aids é uma doença de cunho sexual e erroneamente ainda há quem acredite que apenas quem tem muitos parceiros pode ser contaminado, o que não é verdade.

“As pessoas associam muito a Aids com atitudes promíscuas. Não é assim. A Aids não tem cor, raça, religião, idade. Não importa o estilo de vida. A coleta do exame é simples, não precisa nem de requisição, como em todos os outros disponíveis na rede pública”, detalha Kallinka.


 

Sair da versão mobile