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Dois anos da tragédia de Santa Maria

Completou dois anos, no dia 27 de janeiro, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que vitimou 242 pessoas e provocou sequelas profundas em muitas outras. A tragédia não pode ser esquecida para não ser repetida. Mas, ao que parece, repetir-se-á. A lei nacional preventiva, criada durante a comoção, continua dormitando no Congresso Nacional e os quatro réus da ação penal respondem em liberdade. Imagine se não houvesse forte repercussão internacional, prisão e soltura dos envolvidos e mobilização constante dos familiares com divulgação na mídia.

O único avanço foi a corrida, por todo o Brasil, para verificar se a legislação em vigor, que se mostrou insuficiente, estava sendo cumprida, para que se providenciassem mudanças pontuais, como o poder de polícia para os bombeiros e a obrigação de brigadistas em ambientes frequentados por mais de 200 pessoas. Especialistas sugeriram muito mais: leis que proíbem a superlotação e o uso de fogos de artifício em local fechado, revestimentos adequados em tetos e paredes, brigada anti-incêndio, sprinklers, saídas de emergência, extintores e sinalizações que funcionem.  

Logo após a fatídica noite de Santa Maria, mencionei em “Pedagogia da tragédia, também, nos postos de combustíveis?”, neste espaço, que a morte de 187 pessoas no incêndio do edifício Joelma (SP), em 1974, de outras 100 na Boate Estação (EUA), em 2003, e de outras 194, na boate República Cromañón (Argentina), em 2004, deveriam ter servido de lição para evitar a referida tragédia.

Passado um ano (janeiro de 2014), escrevi, novamente, para lamentar que nem a tragédia da Kiss serviu de lição. O programa ‘Fantástico’, de 26 de janeiro de 2014, mostrou boates e casas congêneres em funcionamento, em diversas partes do Brasil, sem os requisitos básicos de segurança.

 Mencionei que o consumo de bebidas alcoólicas nos postos de combustíveis e nos entornos seguem o mesmo roteiro. Constitui ato de incivilidade (uma vez que direção e bebida não combinam), de riscos conhecidos (fagulha de cigarro, atrito do celular e ‘atropelamento’ de uma bomba podem causar explosão, ou outros incidentes próprios de motoristas alcoolizados), de desrespeito (por invadir espaços públicos, privados e o sossego alheio) e ilegal (porque há legislação municipal proibitiva, que foi alterada e refeita, mas não aplicada integralmente), e pelo ritmo, não o será, nem após uma tragédia, que se torce para que não ocorra. 

Passados dois anos (fevereiro de 2015), estou convencido de que somente a mobilização – não só após a tragédia, de amigos e parentes das vítimas – fará a autoridade eleita (ou a indicada pela eleita) colocar a vida de todos acima do lucro de poucos e, não o inverso, como está acontecendo. É uma vergonha que origina a maioria das tragédias: leis protetivas não são aprovadas e quando o são, a fiscalização frouxa ou corrompida não permite a aplicação. Então, vidas nada valem.

 

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