O mercado financeiro brasileiro registrou fortes oscilações nesta segunda-feira (26), após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O dólar comercial chegou a subir 12,2%, alcançando R$ 5,60, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, acumulou queda de até 17% após a retomada das negociações.
A intensidade dos movimentos provocou sucessivas interrupções nas operações, por meio do mecanismo conhecido como circuit breaker. Diante da volatilidade, o Banco Central (BC) e o Tesouro Nacional realizaram intervenções para tentar reduzir a instabilidade nos mercados.
Lula venceu a disputa com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O resultado surpreendeu investidores que, segundo análises de mercado citadas pela Bloomberg, estavam posicionados majoritariamente para uma vitória do candidato adversário.
Dólar chega a R$ 5,60 e operações são interrompidas
O dólar comercial abriu o pregão em alta de 8,65%, cotado a R$ 5,42. Após a retomada das negociações, pouco antes das 10h, a moeda americana chegou a R$ 5,60, uma valorização de 12,2%.
As operações foram interrompidas novamente diante das oscilações. Pouco antes das 11h, o mercado voltou a funcionar, com o dólar em alta de 10,78%, negociado a R$ 5,53.
O movimento chamou a atenção por superar, na cotação comercial, a variação diária registrada pela taxa média Ptax em 15 de janeiro de 1999. Naquele dia, durante a adoção do regime de câmbio flutuante no Brasil, a taxa avançou 11,10%.
Na sexta-feira (23), antes do segundo turno, o dólar havia encerrado as negociações a R$ 4,99.
Bolsa registra queda acentuada e aciona circuit breaker
O Ibovespa também sofreu uma forte desvalorização. A queda superior a 10% provocou a suspensão temporária das negociações na Bolsa de Valores de São Paulo.
Após a reabertura, as perdas aumentaram e chegaram a aproximadamente 17%, conforme os dados apresentados no relato do mercado.
O circuit breaker é um mecanismo utilizado para interromper temporariamente as operações quando os preços apresentam variações extremas. A medida busca dar tempo para que investidores avaliem o cenário e reorganizem suas estratégias.
No mercado de câmbio, as oscilações também levaram a interrupções. Segundo as informações divulgadas, a B3 ampliou o limite aplicável aos contratos de dólar diante da intensidade dos movimentos.
Banco Central e Tesouro Nacional intervêm no mercado
A volatilidade levou autoridades financeiras a atuar em diferentes frentes.
O Banco Central realizou leilões de swap cambial, operação que, na prática, disponibilizou US$ 3,75 bilhões em exposição cambial no mercado futuro. Esse instrumento pode ajudar a atender à demanda por proteção contra oscilações do dólar.
O Tesouro Nacional também anunciou operações de recompra de títulos públicos para reduzir a pressão no mercado de juros.
Inicialmente, o órgão informou uma recompra de até R$ 3 bilhões em títulos prefixados. Posteriormente, as operações com títulos NTN-F somaram R$ 7,067 bilhões, conforme os dados apresentados no relato.
Os títulos prefixados têm remuneração definida no momento da compra, enquanto seus preços podem oscilar no mercado secundário conforme as expectativas para juros e inflação.
Ativos brasileiros também caem no exterior
A reação negativa não ficou restrita ao mercado nacional. Fundos negociados no exterior e vinculados a ações brasileiras também registraram perdas expressivas.
Um fundo negociado em Nova York, que acompanha ações brasileiras, chegou a cair 27% nas operações anteriores à abertura do mercado. No Japão, um fundo com exposição a ações brasileiras recuou 15%, registrando sua maior perda diária desde 2008, segundo o relato.
Entre as empresas com papéis negociados no exterior, XP e Itaú Unibanco chegaram a apresentar quedas de pelo menos 26% no início das negociações nos Estados Unidos. Santander e Telefónica também registraram recuos.
Os movimentos refletem a revisão das expectativas de investidores sobre a política econômica brasileira após o resultado eleitoral.
Política fiscal e ministério devem influenciar o mercado
Para analistas, a reação inicial tende a ser marcada pela revisão de posições e pela volatilidade. No médio prazo, as decisões do novo governo serão determinantes para a trajetória do dólar, da Bolsa e dos juros.
Entre os fatores acompanhados pelos investidores estão as medidas fiscais, a composição do ministério e as propostas para o Orçamento de 2027.
Relatório do Goldman Sachs citado pela Bloomberg aponta que as declarações sobre a política econômica e a escolha dos principais integrantes da equipe ministerial devem influenciar as expectativas. A definição de quem comandará a Fazenda também é considerada relevante.
O banco destaca ainda a necessidade de maior clareza sobre a estratégia de consolidação fiscal e sobre o custo das promessas de campanha para as contas públicas.
O cenário político no Congresso será outro ponto de atenção, especialmente para a aprovação de medidas econômicas e mudanças no orçamento.
Analistas veem possibilidade de estabilização
Apesar da reação negativa inicial, parte dos analistas considera possível uma recuperação gradual dos ativos brasileiros, dependendo das decisões do governo e das condições econômicas internacionais.
Simon Quijano-Evans, estrategista da Macro Hive, avalia que os preços podem se estabilizar depois do choque inicial. Entre os fatores que podem contribuir para isso estão os juros reais elevados no Brasil e a diferença entre as taxas brasileiras e americanas.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, também destacou a importância de acompanhar as decisões econômicas do próximo governo. Em análise citada pela Bloomberg, ele lembrou que a Bolsa brasileira teve desempenho positivo em 2023, após a aprovação do novo arcabouço fiscal.
A avaliação, porém, não elimina os riscos. Investidores continuam atentos à evolução das contas públicas, à inflação e à possibilidade de mudanças nas expectativas para a taxa Selic.
O comportamento dos ativos nos próximos dias dependerá, portanto, tanto da reação dos investidores ao resultado eleitoral quanto dos sinais concretos sobre as prioridades econômicas do governo eleito.
