“Por isso, está longe de nós o juízo, e a justiça não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que há só trevas; pelo resplendor, mas andamos na escuridão”. Fonte: Bíblia Sagrada. Livro de Isaías, capítulo 59 e o verso 9.
Estamos vivendo momentos de horror por todo o país. Mesmo à luz do dia, estamos presenciando a escuridão a se materializar diante de nossos olhos. Estou me referindo à onda de violência que invadiu já há muito tempo grandes capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, e que agora invade outras cidades localizadas ao sul de Santa Catarina e no litoral, como foram os casos de Florianópolis, São José, Blumenau e Itajaí. A bandidagem incendeia ônibus, viaturas da polícia, e atira contra policiais militares e delegacias, deixando o povo catarinense aterrorizado e refém do medo das chamas da violência que se propaga em grande velocidade por intermédio de falanges do governo paralelo, que montam seus quartéis militares nos quadrantes deste país. Há 25 anos, víamos estas cenas somente através da tela do cinema. Então, saímos do virtual, da cinematografia, para o presencial, e agora somos também coadjuvantes e até mesmo figurantes deste longa metragem, do qual não se sabe quando vai ter fim. É por esta razão que volto a falar sobre este assunto, entendendo, primeiramente, que não devemos dormir diante de tais fatos, até porque estão muito próximos de nós tubaronenses. Creio que todos já devem ter ouvido aquela corriqueira frase dita repetidas vezes por populares: “Eu pensava que isso só acontecia na casa do vizinho, mas não na minha”. Então, diante dos terríveis acontecimentos, não podemos ser intolerantes, ou desprevenidos, como naquela alegoria aos macacos boca-preta, que se divertem nas copas das árvores em dias ensolarados, sem a mínima preocupação com a tempestade que desponta no horizonte.
E agora o que fazer? E nós, o que faremos? A resposta correta é prevenção ou prevenir, antes que o abominável da desolação, de que falou o profeta Daniel em seu livro profético, no Velho Testamento da Bíblia Sagrada, apresente-se. Ou o leitor acha que em nossa cidade o crime não está organizado? Ledo engano se você pensa assim. Mas de que modo e maneira? Alguém diria: “Do nosso modo e com a inteligência que temos”. Seria o suficiente? “Ah! Mas isso é papel e dever da polícia”, pensa a maioria da população. E em parte eles estão certos. Não é o nosso objetivo meter a colher nas questões legais da nossa polícia e do judiciário. Mas há casos em que a polícia não pode operar, e tem como agravante o fato da dificuldade em se escolher bem os profissionais que vão trabalhar em área específica ou estratégica. Vou citar como exemplo um fatídico caso que aconteceu em São José, na Grande Florianópolis. O centro de recuperação de menores e/ou adolescentes Educandário São Lucas. Esse mesmo, que foi assunto nos telejornais, inclusive em rede nacional. Atualmente, o internato deu lugar a um imóvel abandonado e em ruínas. Sabem por quê? As chamas da violência tinham também se apoderado daquele lugar. E ali mesmo há indícios de que eram praticadas as mais degradantes e inconcebíveis barbáries que o lado “mais negro” da violência pode apresentar, tais como adolescentes sendo violentadas por monitores e policiais, crianças que durante a noite saíam para roubar objetos, que depois eram entregues também a certos “funcionários” e/ou “policiais”, além dos maus-tratos aplicados a outros detentos, e aí talvez residisse um dos grandes motivos do alto índice de fugas registrado na história daquela instituição. Decididamente, aquele ambiente não ajudava a recuperar ninguém, pelo contrário, tornava os internos ainda mais revoltados com o sistema. Então, temos ou não razões o suficientes para nos preocupar com as crianças que hoje estão sob custódia do juiz de direito, ou espalhadas pelos bolsões da miserabilidade que circunda a bela cidade de Tubarão?
Vejam o que diz o juiz de direito e psicólogo Alberto Villamarim sobre o assunto em foco: nossa sociedade é uma grande fábrica de heróis e bandidos. É uma fábrica moderna e eficiente. Sua produção é a mais variada possível, capaz de satisfazer os gostos mais exigentes. Ela fabrica produtos bons e produtos maus. Mas há um problema: parece que nos últimos tempos essa estranha usina tem concentrado o grosso de seus esforços na fabricação de produtos ruins que se voltam contra ela e ameaçam destruí-la.
Diante desse quadro, nada resta, a não ser apelar às autoridades tubaronenses a tomada de decisão em relação à contemplação, e acompanhamento na íntegra, de projetos de nível social, investindo pesadamente na educação participativa, em que a presença dos pais ou responsáveis é exigida dentro do universo escolar, aproximando este último de cada casa, de cada lar, para que se faça efetivamente uma campanha que não deixe fora nenhum elemento de transformação social, ainda que tenha que criar uma pasta, um núcleo de operações voltadas nessa direção. Esse é o caminho; poder público e sociedade unindo forças contra o mal que parece triunfar na sociedade mundial. Vamos fazer uma Tubarão que sirva de modelo para outras cidades e para futuras administrações. E, neste momento, coloco-me também à disposição da sociedade e da administração pública para estar empreendendo esforços no sentido de coibir a violência e desigualdade social, que teimosamente insiste em nos tirar o sono.
