FOTO Mídias Sociais Reprodução Notisul
Tempo de leitura: 6 minutos
Há mais de 150 anos terminou a Guerra do Paraguai, mas alguns de seus símbolos continuam atravessando fronteiras, despertando sentimentos e provocando debates sobre memória, identidade e patrimônio histórico.
Um deles voltou ao centro das atenções: o canhão El Cristiano.
Há anos existem manifestações paraguaias pela restituição da peça, hoje pertencente ao acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Para o Paraguai, o enorme canhão possui um significado que ultrapassa sua função militar. Tornou-se parte da memória nacional de um país profundamente marcado pela guerra.
O debate ganhou novo impulso nos últimos dias, diante das informações de que a devolução avançou na esfera política brasileira. No Paraguai, autoridades receberam a possibilidade como um gesto de fraternidade entre os dois países.
É compreensível.
Mas a retomada dessa discussão permite fazer uma pergunta que raramente aparece quando se fala no El Cristiano: se vamos rever o destino dos patrimônios levados ou capturados durante aquela guerra, não deveríamos olhar para os dois lados da fronteira?
Porque existe no Paraguai uma extraordinária peça da história militar brasileira. Seu nome é Anhambaí.
E talvez ela ofereça a oportunidade para que uma discussão sobre devolução se transforme em algo muito maior: um gesto recíproco de reconciliação histórica.
Uma canhoneira brasileira no Paraguai
A Anhambaí foi uma canhoneira da Marinha do Império do Brasil incorporada à Armada Imperial em 1858 e destinada à região de Mato Grosso.
Quando forças paraguaias avançaram sobre território brasileiro em dezembro de 1864, a embarcação participou da defesa do Forte de Coimbra.
A pequena canhoneira teve papel na resistência e também auxiliou na retirada dos defensores brasileiros diante do avanço paraguaio.
Pouco depois, em janeiro de 1865, a Anhambaí foi perseguida e capturada por forças paraguaias. Houve combate e perdas entre seus tripulantes.
A partir dali, um navio que carregava a bandeira do Império do Brasil passou para as mãos do Paraguai.
A Anhambaí foi incorporada ao esforço militar paraguaio e permaneceu envolvida nos acontecimentos da guerra. Nos momentos finais do conflito, acabou afundada junto a outras embarcações para impedir que caíssem novamente nas mãos brasileiras.
E ali permaneceu durante décadas. Se a história terminasse dessa maneira, talvez hoje tivéssemos apenas documentos, desenhos e relatos sobre a embarcação.
Mas o Paraguai fez algo que merece reconhecimento. Seus remanescentes foram recuperados no século XX, preservados e incorporados ao patrimônio histórico daquele país.
Hoje, a Anhambaí pode ser vista no Parque Nacional Vapor Cué, em Caraguatay. É preciso reconhecer o mérito dessa preservação. Foram os paraguaios que recuperaram esses vestígios e permitiram que chegassem às gerações atuais.
E justamente por isso qualquer conversa sobre seu futuro deve nascer do respeito.
O outro lado do El Cristiano
O Paraguai pede de volta o El Cristiano. Há razões históricas e emocionais para isso.
A peça foi produzida durante a Guerra do Paraguai e tornou-se um dos símbolos mais conhecidos daquele conflito. Depois da derrota paraguaia, veio para o Brasil e passou a integrar nosso patrimônio histórico.
O Paraguai nunca deixou de atribuir ao canhão enorme importância simbólica. Essa reivindicação precisa ser ouvida com respeito. Mas ouvir não significa ignorar que o Brasil também possui patrimônios ligados à mesma guerra que permaneceram no Paraguai.
E a Anhambaí talvez seja o exemplo mais eloquente. De um lado, temos um canhão paraguaio preservado no Brasil. Do outro, uma canhoneira brasileira preservada no Paraguai. Ambos atravessaram a fronteira como consequência da mesma guerra.
Ambos sobreviveram por mais de um século. Ambos contam histórias que pertencem à memória nacional de seus povos.
Então por que a discussão precisa se limitar à devolução de apenas um deles?
El Cristiano pela Anhambaí
A proposta que colocamos em debate é simples. O Brasil devolve o El Cristiano ao Paraguai. O Paraguai devolve a Anhambaí ao Brasil. Não como indenização. Não como cobrança.
Não como tentativa de reabrir as feridas de uma guerra encerrada há mais de século e meio. Exatamente o contrário. Que seja um gesto simultâneo de amizade.
Uma troca de patrimônios históricos capaz de demonstrar que brasileiros e paraguaios podem olhar para um passado doloroso sem transformar a memória em ressentimento.
Não estamos afirmando que os dois objetos tenham necessariamente a mesma condição jurídica, museológica ou patrimonial. Essas questões precisariam ser examinadas pelos governos, instituições culturais e especialistas dos dois países.
O que propomos é um princípio político e cultural de reciprocidade. Se existe disposição para devolver, que ela possa existir dos dois lados.
O valor da reciprocidade
Há uma diferença profunda entre simplesmente retirar uma peça de um museu e devolvê-la a outro país e realizar uma cerimônia conjunta na qual duas nações restituem reciprocamente patrimônios ligados à sua história.
No primeiro caso, existe uma devolução. No segundo, existe reconciliação. Imagine o significado de uma cerimônia com representantes dos dois países. O El Cristiano retornando ao Paraguai. A Anhambaí retornando ao Brasil.
As bandeiras brasileira e paraguaia lado a lado, não mais diante de exércitos adversários, mas diante de dois povos que decidiram transformar objetos de guerra em instrumentos de aproximação.
Seria uma mensagem poderosa. Especialmente em uma América do Sul que precisa conhecer sua história sem permanecer prisioneira dela.
Onde deveria ficar a Anhambaí?
Caso algum dia essa proposta avance, a discussão brasileira não deveria terminar simplesmente com a chegada da embarcação ao país.
Seria necessário decidir como preservar e apresentar a Anhambaí às futuras gerações.
Ela poderia integrar um museu ligado à história naval brasileira ou ser exposta em local relacionado aos acontecimentos que protagonizou.
Mais importante que o endereço seria a narrativa.
A Anhambaí deveria contar a história da Marinha Imperial, da defesa do Forte de Coimbra, da invasão de Mato Grosso, de sua captura e também de sua longa permanência no Paraguai.
Inclusive do esforço paraguaio que permitiu sua recuperação e conservação. Trazer a embarcação ao Brasil não deveria significar apagar a parte paraguaia de sua história. Ao contrário.
Essa trajetória binacional é justamente o que torna a peça tão interessante.
O Paraguai também merece contar sua história
O mesmo princípio deve valer para o El Cristiano.
Caso retorne ao Paraguai, o canhão não deveria ser apresentado apenas como símbolo de vitória ou derrota, mas como testemunho de um dos conflitos mais devastadores da história sul-americana.
Patrimônio histórico não existe para ensinar novas gerações a odiar. Existe para ajudá-las a compreender. Brasileiros precisam conhecer melhor a história do Paraguai. Paraguaios precisam conhecer melhor a história do Brasil.
E ambos precisam compreender o tamanho da tragédia humana representada por aquela guerra. É possível honrar soldados, preservar memórias nacionais e reconhecer sofrimentos sem transformar a história em instrumento de hostilidade contemporânea.
Uma dívida de reconhecimento com quem preservou a Anhambaí
Há ainda um ponto indispensável. O Paraguai preservou a Anhambaí.
Seus remanescentes não chegariam ao século XXI nas condições atuais sem o trabalho realizado para recuperá-los.
Qualquer eventual negociação deveria reconhecer formalmente esse esforço.
Uma restituição não poderia ser tratada como se o Brasil estivesse simplesmente recuperando algo abandonado em território estrangeiro. Houve preservação. Houve trabalho. Houve investimento. Houve interesse histórico. Isso merece gratidão e reconhecimento.
Da mesma forma, o Brasil preservou o El Cristiano durante gerações no Museu Histórico Nacional.
Essa história de conservação dos dois lados torna a proposta ainda mais simbólica: cada país cuidou, por décadas, de um patrimônio profundamente ligado à história do outro.
Talvez tenha chegado o momento de perguntar se esses objetos poderiam retornar aos seus países de origem.
O passado não pode ser mudado. O significado dele, sim
Nenhuma troca de patrimônio modificará o que aconteceu entre 1864 e 1870. Não devolverá vidas. Não eliminará sofrimentos. Não mudará batalhas.
E certamente não encerrará os debates historiográficos sobre causas, responsabilidades e consequências da Guerra do Paraguai.
Mas as sociedades podem escolher o que fazem com os símbolos que herdaram. Durante muito tempo, objetos capturados em guerras foram exibidos como troféus. No século XXI, talvez alguns deles possam adquirir outro significado.
O El Cristiano pode deixar de representar aquilo que o Brasil trouxe do Paraguai e tornar-se aquilo que o Brasil decidiu devolver ao povo paraguaio.
A Anhambaí pode deixar de representar apenas uma embarcação brasileira capturada pelo Paraguai e tornar-se aquilo que os paraguaios preservaram e decidiram restituir aos brasileiros.
O passado permaneceria exatamente o mesmo. O significado presente desses patrimônios, entretanto, seria completamente diferente. Dois países. Dois patrimônios. Uma guerra encerrada há mais de 150 anos. E dois gestos simultâneos de respeito.
O historiador Paulo Rezzutti colocou essa questão novamente diante do público brasileiro, e acreditamos que ela merece ser discutida.
Se Brasil e Paraguai estão preparados para conversar sobre a volta do El Cristiano, talvez este seja também o momento de colocar a Anhambaí sobre a mesa.
Não como condição hostil. Não como ultimato. Mas como convite à reciprocidade. El Cristiano pelo Anhambaí. Uma troca justa?
Acreditamos que sim.
Mais do que justa, ela poderia transformar dois antigos troféus de guerra em símbolos permanentes de amizade entre brasileiros e paraguaios.
As informações foram extraídas de textos e proposições do príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Gerhard Erich Boehme e Paulo Rezzutti
