“O Brasil da minha infância cresceu comigo.
Continuou a ter o povo dos cafezais de Portinari,
mas também o povo de Zumblick porta-bandeira do Divino.
Porque foi ficando cada vez mais a sul.
Até ao pampa que a gente por cá diz “as pampas”.
Com castelos do Assis Brasil e rios que têm as margens imóveis.
Com o vento da Lélia Nunes.
Aquele vento Sul que fazia travessuras nas saias das meninas.
E os rapazes à espreita, à espera de revelações.”
Daniel de Sá, In: O meu Brasil português,2008
Sob o signo do ano de Portugal no Brasil, historiadores e escritores encontraram-se em Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina, para participarem de um Seminário promovido pelo secular Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Em debate, o papel dos agentes institucionais acadêmicos e culturais na Perenidade das Relações. Vozes portuguesas como Manuela Mendonça, da Academia Portuguesa de História, Miguel Maria Monteiro, da Universidade de Lisboa, Alberto Vieira, do CEHA da Madeira, e Avelino de Freitas Menezes, da Universidade dos Açores ficaram, lado a lado, de vozes brasileiras oriundas de diferentes regiões do país e de expressivas instituições culturais trocando experiências, intercambiando ideias e projetos, tecendo e fortalecendo uma teia produtiva de relações perenizadas no tempo e alimentadas por um história cultural, social e econômica comum desde que o português Pero Vaz de Caminha mandou uma carta escrita ao rei de Portugal falando pela vez primeira sobre o Brasil.
De todos, com certeza, foi Avelino de Freitas Menezes que se sentiu em casa, na sua praia, ao falar com propriedade absoluta sobre Os Açores e o Brasil: intercâmbios históricos e culturais, do mundo açoriano de lá e em terras ainda açorianas de cá. A tal esquina das ilhas que um dia ousei construir e para aproximar toda gente – professores, escritores, músicos, artistas e até políticos. Durante as últimas décadas, tem sido muito gratificante assistir à crescente presença de autores açorianos em trabalhos acadêmicos, teses de mestrado e doutorado das nossas universidades, em especial relevo no sul do Brasil ou ainda em inúmeros artigos publicados em revistas, suplementos literários e jornais.
Os portugueses que nos visitam vão sentir a força da ancestralidade açoriana na margem de cá do Atlântico, na Ilha de Santa Catarina – portal de entrada para os quase seis mil açorianos no distante século 18. Encruzilhada, marco histórico de convergência de culturas, porto de passagem de todas as expedições que, desde o século 16, rumaram em busca da esquina do mundo, a última fronteira do continente americano onde o Atlântico e o Pacífico se encontram.
Na outra margem, estão os açores, um arquipélago formado por nove Ilhas vulcânicas, terras de lavas, sismos, maresias, sargaços. Ilhas de bruma fincadas no meio do Atlântico Norte. Lugar de origem. Esquina dos mares, ponto de cruzamento, de passagem, de partida. Porto seguro no caminho dos navegadores. Rota de comércio, de pessoas e culturas.
Nelas, mora um povo que descende de toda a memória portuguesa, e cuja experiência de insularidade lhe confere uma identidade anímica e cultural muito própria, escreve o escritor João de Melo em Açores, o Segredo das Ilhas (2000: p.7). Povo errante que se espalhou pelo mapa do mundo, atravessou o oceano levando as ilhas dentro de si e a alma banhada no mar salgado.
Nos Açores, o sul do Brasil encontra o alargamento de seu passado e o seu patrimônio cultural. Um legado que alcança o século 21 como identidade cultural construída no tempo, no espaço telúrico e na luta pela sobrevivência com dignidade, marco legal na construção do Mundo Novo.
Somos gente da terra de cá: catarinenses, brasileiros. Somos gente da terra de lá: ilhéus açorianos, por direito de herança dos nossos antepassados que um dia deixaram o porto de Angra, na Ilha Terceira, sabendo que jamais voltariam.
Uma história de encontros e convergência cultural marca a sua forte presença na sociedade catarinense, desvendada nos anos oitenta e escancaradas as janelas para o imenso Atlântico do Sul e do Norte dando-nos a conhecer.
Concluo, citando ainda o escritor Daniel de Sá, que na manhã de 27 de maio, lá na sua Maia, Ilha de São Miguel, deixou-nos: “Ficou-nos esta sina de permanecermos unidos. Porque somos irmãos. Continuamos por cá. Entre mar e céu, entre marés e montanhas. Divinos, quase. As coisas ou nós? Tudo. Uma espécie de panteísmo pressentido. Desde o “cagarro” de Santa Maria ao “manezinho” da Ilha. Vocês continuam por cá. E nós estamos aí.
