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Francisco

 

Dom Odílio Scherer nunca figurou seriamente numa hipótese de sucessão a Bento 16. Serviu de “boi de piranha”, como se diz na política, para a construção do nome alternativo, também oriundo da América Latina, mas distante dos tentáculos da cúria romana. O brasileiro era o preferido da cúpula. Seu discurso em defesa da condução da igreja até então foi a senha para não credenciá-lo à condição de santidade. A renúncia foi providencial, haja vista a inabilidade do agora papa emérito em tratar de assuntos delicados em choque com a doutrina católica e muito menos intervir nas demandas políticas inerentes à função de chefe de estado. O arcebispo de São Paulo não representaria em si uma renovação e seria visto como uma continuidade do pífio desempenho de Ratzinger. A ruptura, mesmo que demagógica, fazia-se necessária para satisfazer o furor da opinião pública e apaziguar as correntes internas do Vaticano. Assim, Francisco tornou-se a opção política capaz de romper sem mudar.
 
João Paulo 2º teve um diferencial em relação a Bento 16: o carisma. Porém, ambos preservaram o caráter retrógrado e demagógico do apostolado romano nos últimos séculos. É preciso considerar que a enxurrada de escândalos envolvendo elevadas autoridades eclesiais exigiu tempo em demasia dos doutores da igreja para explicar o inexplicável. Afinal, as denúncias já pipocavam muito antes da chegada do Alemão ao pontificado. No auge dessa turbulência, a fé católica dividiu-se e Roma perdeu o controle absoluto dos ritos eucarísticos. Surgiram novas vertentes, imunes a interferências desagregadoras como ocorrera em outros tempos. A renovação carismática e todos os genéricos da avalanche gospel que inundou os templos impuseram seu lugar ao sol. Ao poder central, coube aceitar tais movimentos, até pela utilidade dos mesmos em alienar o senso crítico dos fiéis, diferentemente da ação dos núcleos eclesiais de base, prontamente sufocados pelo Vaticano. Agora, passam o bastão para quem deverá imprimir um profundo choque de unificação das correntes e a reafirmação do domínio ideológico do pensamento católico. 
 
Nas palavras do próprio papa, para evitar o fim do mundo católico, “foram ao fim do mundo” buscar Francisco. Apesar de pairar sobre ele as sombras da omissão quanto à ditadura argentina, o sucessor de Pedro tem uma aura de santificação.
 
Surfa na onda da humildade, num momento em que o capitalismo vivencia profunda crise. Nada mais adequado para se afirmar como referência. Reabre diálogos até então truncados e dimensiona uma nova leitura capaz de colaborar para reestabelecer a ordem mundial. Há muito, os papas elegem inimigos tangíveis para justificar suas peregrinações. João Paulo 2º mirou no comunismo e agregou forças para aniquilá-lo. Já Bento 16 parecia lutar contra si mesmo. Agora resta esperar para saber quem será o inimigo de Francisco. Afinal, sem antagonista, jamais alçará a condição de herói que tanto esperam dele.
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