Desde novembro de 2010 uma nova expressão entrou em nosso vocabulário: primavera árabe; onda de manifestações civis no Oriente Médio e norte da África, que tirou do poder ditadores como Gadaffi, na Líbia, e Mubarak, no Egito. No bojo desta “primavera”, desde o ano passado, temos acompanhado os confrontos na Síria entre rebeldes e o governo do ditador Bashar al-Assad, cujo regime parece exaurir-se. Um relatório recente, divulgado pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), aponta que mais de 23 mil vidas foram ceifadas desde o início dos confrontos. Deste total, mais de 16 mil são civis. Um número absurdo, jamais justificável.
Esta semana, ao ver na internet um vídeo de rebeldes sírios (o lado bonzinho?) jogando corpos de civis pró-governo de um prédio e matando outros dois de forma selvagem e brutal, fez-me lembrar da obra ”Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, que relata o julgamento de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS, responsável pela logística de extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Arendt acompanhou o polêmico julgamento perguntando-se: “O que faz um ser humano normal realizar os crimes mais atrozes como se não estivesse fazendo nada demais?”. E concluiu que Eichmann nada tinha de defeitos morais, inclinações ideológicas, rancores raciais ou problemas de inteligência. O que ele possuía era uma “simples” ausência de pensamento, o que permitia que suas ações fossem más, pois apesar dele afirmar que apenas “cumprira ordens”, ele não possuía qualquer patologia mental, sequer qualquer distúrbio de caráter. Suas ações demonstravam um novo tipo de “mal”, que ela denominou de “mal banal”.
Recentemente a ficção retratou esse “mal banal” no filme “O Leitor”, quando Hanna Schmitz, ex-agente da Gestapo, personagem interpretada por Kate Winslet, é questionada pelo juiz, em seu julgamento, sobre o motivo que a fez permitir que 300 prisioneiras judias fossem queimadas dentro de uma igreja simplesmente para impedi-las de fugir. E ela responde: “No meu lugar, o que você faria? Meu dever era manter a ordem”.
O “mal banal” caracteriza-se, assim, pela ausência do pensamento. Essa ausência provoca a privação de responsabilidade, como lembra Arendt. Este tipo de mal torna-se patente em sociedades massificadas, possuidoras de organizações econômicas, políticas e sociais potentes, nas quais os seres humanos tendem a sentir-se sem poder, solitários, submissos e quase condicionados.
Nessas condições degradantes – diria inumanas -, o ser humano torna-se incapaz de pensar as consequências das ordens dadas pelos seus superiores ou grupos. Ao renunciar ao pensamento, Eichmann destituiu-se da condição de ser dotado de espírito que lhe possibilitaria o “descondicionamento” e, assim, dizer: “Não, isso eu não posso!”. Os recentes fatos de extrema violência na Síria parecem banalizar o mal.
Quais seriam os critérios, nessas condições, para se lutar? Que argumentos teriam, ambos os lados, para justificar a ofensiva massiva contra seus respectivos opositores? A luta pela vida, liberdade e a supressão da violência não são argumentos razoáveis neste caso, pois os princípios norteadores foram vilipendiados. Será que ainda lembram os motivos pelos quais governam ou lutam? Ou estariam padecendo sob a “banalidade do mal”?
