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História da fotografia em Tubarão

Nasci em 1939, sou filha de Joaquim Pereira da Silva e Luiza Machado da Silva. Mais conhecidos como “seu Joaquim fotógrafo” e “dona Zuzu”. Quando em tinha 1 ano e 8 meses, meus pais se mudaram do então distrito de Gravatal para Tubarão.
 
Meu pai, um jovem apaixonado pela arte da fotografia, foi aprender a profissão de fotógrafo com o senhor João Silva, que era o fotógrafo de Tubarão. Seu João era o dono do único Foto de Tubarão, que se chamava Foto Pereira. Com ele, o pai aprendeu a ser fotógrafo, a trabalhar em um atelier, usar a luz natural para fotografar, pois luz elétrica só era ligada à noite pela Usina Força e Luz. Aprendeu a manipular um laboratório fotográfico, o tal “quarto escuro” onde se revelava a chapa (negativo de vidro) e, depois, com papel fotográfico, da Kodak ou da Agfa, se fazia a fotografia.
 
Minha mãe, com a esposa do seu João, aprendeu a fazer o revelador, a retocar as chapas (negativos) para desaparecerem todas as imperfeições, os pequenos defeitos da pele, manchas, espinhas, etc. Aprendeu também a lavar, secar e cortar as fotos com o uso de guilhotina, dando um melhor acabamento, fazendo biquinhos nas bordas. Levou poucos meses para aprender. Em 1941, meu pai comprou o Foto do Seu João, que queria mudar-se de Tubarão. Foi uma alegria muito grande, pois não havia outro Foto na cidade, além de ser um bom negócio. O Foto Pereira situava-se na Rua Marechal Deodoro, entre a Relojoaria Silvestre e um prédio no qual, no térreo, funcionava a agência do Banco do Brasil e, no 1° andar, o gabinete dentário do seu Antônio Neuremberg. A casa onde funcionava o Foto e onde também morávamos, era muito grande e pertencia ao senhor Fernando Genovez. Nesta casa, passei a minha infância. Os fundos do terreno do imóvel confrontavam com os trilhos da Estrada de Ferro Dona Thereza Christina. No dia 9 de setembro de 1942, minha mãe deu a luz a uma menina, Zélia, no Hospital Nossa Senhora da Conceição. Minha irmã faleceu em 12 de setembro de 1943, vítima de difteria ou “crupe”.
 
Meu pai trabalhava muito, dia e noite. Incansável. Era o fotógrafo da Companhia Siderúrgica Nacional. Fotografou todas as obras em Capivari de Baixo, desde a pedra inaugural, lavador de carvão, usina termoelétrica, Vila dos Operários e Vila dos Engenheiros. Era, também, o fotógrafo da Estrada de Ferro e da Delegacia de Polícia, onde todas as ocorrências eram fotografadas, bem como as fotos para confecção das carteiras de identidade. Enfim, era o fotógrafo da cidade, das famílias, das festividades sociais e religiosas, dos eventos cívicos e políticos. Como, por exemplo, os bailes de rainha da primavera, nos Clube 29 de Junho e Sul Catarinense, os blocos carnavalescos ou a primeira turma de formandas do Curso Normal do Colégio São José que, se não me falha a memória, ocorreu em 1945. Incontáveis foram os casamentos que foram registrados por sua máquina fotográfica. Lembro-me muito bem dos casamentos de Yolanda Genovez com Zelindro Damiani, do Waldemar e Vanda Salles, da Edna Gouveia, filha do Dr. Gouveia, o dentista da rua da igreja. Lembro, muito bem quando fotografou a festa de coroação de Nossa Senhora, em maio de 1943, na Igreja Matriz. Na fotografia aparecem dezenas de anjos, meninas convidadas para encenarem a celebração. Eu também me encontro entre elas, bem pequena, com 4 anos.
 
Registrou a Festa do Divino em 1946, quando Hertha Zumblick e o Zequinha Neves foram os imperadores, festividade de grande tradição beleza. A propósito, no livro de poesias “Debruçando do Passado”, de Lourença Cargnin D´Aláscio, (págs. 49-50), o poema “A Festa do Divino” encontram-se os versos: “Terminada a procissão/Entregava-se a bandeira/Para registrar a ocasião/Havia o Foto Pereira”(…) “Bater a fotografia/Pondo nos cabelos um jasmim/Dª. Zuzu exclamava: “sorria!/Pode bater Joaquim!”.
 
Em 18 de setembro de 1946 nasceu a minha irmã Lélia. No ano seguinte, mudamos para um casarão da rua Coronel Collaço, 200. Ali foi instalado o Foto Pereira, ponto que ficou conhecido de todos. Em março, quando entrei na escola, no Colégio São José, nós já morávamos no casarão da rua da igreja. Até que, um dia, ele resolveu vender o Foto, mas ninguém queria comprá-lo. Pois era voz corrente que se o seu Joaquim abrisse outro estabelecimento, o comprador não iria se dar bem. Vendeu para Felipe Zappeline, de Urussanga, com a seguinte condição: por quatro anos não poderia abrir outro Foto em Tubarão.
 
Cerca de  um ano depois, ele não aguentou ficar longe da fotografia e, assim, em meados de 1948, fomos morar em Brusque, onde abriu um novo Foto Pereira. Na cidade de Brusque, berço da indústria têxtil de Santa Catarina, nasceu no dia 9 de novembro de 1951, o meu irmão Mário César. No sul de Santa Catarina, os fotógrafos estabelecidos eram poucos: em Laguna, o seu Camilo Fortes, depois o Foto Bacha, de Almiro Bacha; em Tubarão o seu Joaquim, com o Foto Pereira e, em Criciúma, o Foto Zappeline, de Faustino Zappeline. Todos os demais fotos que se estabeleceram nessas três cidades não progrediram. Depois da saída de meu pai de Tubarão, o senhor João Izé, em 1950, estabelece-se na cidade e abre o Foto Arte.
 
Voltamos a morar em Tubarão em julho de 1952, reabrindo o Foto Pereira no antigo endereço: Rua Coronel Collaço, 200. Como podem constatar o primeiro fotógrafo de Tubarão foi o senhor João Silva (Foto Pereira), que vendeu o Foto para o meu pai em 1941. O meu pai, Joaquim Pereira da Silva, foi o segundo fotógrafo de Tubarão. Em 1963, com a mudança de domicílio de minha família para Porto Alegre, meu pai passou o Foto Pereira para o casal Elvira e Luiz Gonzaga Medeiros, que continuam trabalhando e mantendo o “Foto Pereira” como um nome que pertence à memória da cidade. Um nome que dignifica a história da fotografia em Tubarão.
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