
Silvana Lucas
Imbituba
A crueldade da morte de Vitor Pinto, de 2 anos, mobiliza a sociedade em busca de justiça. Ontem, em Imbituba, parentes do menino foram ouvidos pela Polícia Civil e uma manifestação foi realizada no local do assassinato.
“Aproveitamos a presença dos pais na homenagem ao filho para a mãe reconhecer alguns acessórios e roupas do suspeito detido. Confirmamos alguns indícios de que o rapaz é o autor do crime”, destaca o delegado responsável pelo caso, Raphael Giordani.
O delegado também ressalta que, diante do material reunido pela polícia até o momento, ele apontaria em 90% que o rapaz é o autor do crime. E acrescenta que, além dos interrogatórios, outros fatores são importantes e imprescindíveis para esclarecer o assassinato.
“Durante nossa conversa, a mãe contou que antes de matar Vitor o assassino fez um carinho na bochecha do menino. A criança estava com a cabeça baixa e, ao ser tocado no rosto, levantou o pescoço e foi neste momento que o rapaz passou a lâmina”, relata Raphael.
O delegado informou que a arma usada ainda não foi encontrada e que, provavelmente, deve ser um estilete, conforme contou a mãe. Quanto ao suspeito ter dormido na noite anterior no terminal rodoviário onde também estava a família, o pai do menino descartou esta hipótese, porque lembrava que o homem tinha pele mais escura.
A posição da Funai
No dia do crime, a Fundação Nacional do Índio (Funai) de Santa Catarina emitiu uma nota de repúdio contra o assassinato que chocou Santa Catarina e o Brasil. “A Funai vem a público manifestar sua enorme consternação e revolta pelo assassinato brutal perpetrado contra o indígena Kaingang Vitor Pinto. Ao mesmo tempo, externa sua solidariedade aos pais Sônia da Silva e Arcelino Vara Pinto, bem como à comunidade da Aldeia Condá, onde ele vivia. Solicita ainda à Polícia Civil catarinense para que não meça os esforços para a elucidação desta morte de modo a se fazer justiça contra tão odioso crime. Informa também que acionará a Polícia Federal para acompanhar o caso”.
Motivação para o crime
Raphael declarou que durante uma nova conversa com o suspeito na tarde desta terça-feira, ele continuou a negar o crime. “Eu particularmente considero menos importante descobrir a motivação do que a autoria. Nada irá justificar o assassinato. Tenho certeza que não houve cunho étnico. Não há nada nos autos que indique qualquer preconceito contra etnia, pelo menos até então”, afirma o delegado.
Protesto
Na Cidade Portuária, no mesmo horário e local do assassinato, foi realizada a manifestação em homenagem ao menino. Várias pessoas, entre religiosos, índios e moradores usaram um lenço vermelho amarrado no pescoço, onde o menino foi cortado. Faixas, cartazes e tintas coloriram a calçada da rodoviária para lembrar o sangue derramado. Em Chapecó, cidade de origem da família, cerca de 100 indígenas também protestaram.
O acusado
O suspeito, de 23 anos, é natural de Imbituba e foi detido no dia seguinte ao crime. Ele está preso provisoriamente por 30 dias na Unidade Prisional Avançada (Upa) do município.
A morte do menino
Vitor Pinto, 2 anos, foi assassinado por volta das 12 horas da última quarta-feira quando se alimentava no colo da mãe. Os dois estavam à sombra de uma árvore, próxima à rodoviária. O suspeito aproximou-se e cortou o pescoço do menino, que morreu na hora. O garoto era de uma família de índios kaingangues e vivia na aldeia Condá de Chapecó. Ele acompanhava os pais, que durante o verão, assim como muitos indígenas, deslocam-se para o litoral para vender artesanato.