
Lysiê Santos
Tubarão
Há 500 anos, um homem questionou a prática da Igreja Católica Romana. Ele foi excomungado, guerras ocorrem, a inquisição tomou força e a Reforma Protestante mudou o mundo. O homem excomungado foi o monge agostiniano Martinho Lutero, que escreveu 95 teses contra, principalmente, as indulgências praticadas na época. No dia 31 de outubro de 1517, ele as colou na Igreja de Wittenberg, na Alemanha. Após esse ato, os interesses políticos, financeiros e religiosos mudaram e ocorreu a maior ruptura do cristianismo.
Hoje, esse processo histórico completa 500 anos, e é considerado um dos eventos fundadores da história moderna. Para celebrar a data, igrejas cristãs realizam atos alusivos à ação. A Igreja Luterana de Tubarão promoveu diversos eventos durante a semana passada incentivando o debate sobre a reforma. Para o pastor Nilton Lindenal Pooch, apesar dos grandes impactos do ato, o tema é pouco debatido nas escolas e instituições religiosas. “A reforma protestante vai além da religião. Ela trouxe a liberdade de expressão à sociedade, incentivou a educação, o desenvolvimento do comércio, da política democrática, o acesso à bíblia e ao conhecimento, entre tantas outras conquistas, como a educação e a liberdade feminina”, afirma. Ele conta que Lutero deixou mais de 400 obras escritas e traduziu a Bíblia do latim para o alemão permitindo o acesso antes restrito ao clero.
O pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular de Tubarão, Luís Gustavo Palhano, ressalta que a reforma protestante é um marco importante. “Para a cristandade, a reforma representa um marco de liberdade. O que antes era apenas uma forma distante e indiscutível, tornou-se uma fé pessoal que fez de cada cristão um sacerdote com acesso a Deus. A reforma, de certa maneira, eliminou os intermediários nos fazendo entender que todos temos acesso a Deus simplesmente pela sincera crença em Jesus Cristo”, acredita.
Cristãos refletem sobre os efeitos da Reforma
Para comemorar as conquistas da ação de Martinho Lutero, hoje, às 19h30, na Igreja Assembleia de Deus, de Oficinas, diferentes entidades cristãs se reúnem em um culto festivo. A ação organizada pelo Conselho de Pastores Evangélicos de Tubarão (Conpet) terá uma programação especial com músicas, homenagens e reflexões sobre a história. O presidente do Conpet e pastor da Igreja Assembleia de Deus Independente de Tubarão, Carlos Augusto Lopes, conta que a Reforma contribuiu principalmente com a educação e o acesso a Bíblia. “Após a tradução de Lutero, a Bíblia também pode ser traduzida em português por José Ferreira de Almeida e hoje todos tem acesso. Aqui no Brasil em 1500 foi celebrada a primeira missa católica e em 1557 ocorreu o primeiro culto celebrado por cristãos franceses reformados. Hoje somos mais de 40 milhões de evangélicos em todo o país com crescimento constante a cada ano”, explica.
Comprar a salvação era inconcebível. Por centenas de anos, católicos e protestantes se enfrentaram. Entre eles, o mesmo livro-guia, a Bíblia, interpretada das mais diversas formas. Hoje, há o consenso de que, apesar das diversas religiões existentes, Cristo é apenas um e, portanto, há de se pregar cada vez mais a paz, a liberdade e o respeito.
A reforma protestante foi um movimento reformista cristão culminado no início do século 16 por Martinho Lutero, na Alemanha.
Em 2017 esse processo histórico completa 500 anos, sendo hoje considerado um dos eventos fundadores da história moderna.
As mudanças
No fim da Idade Média, a Igreja Católica tinha grande influência política e social. Ela se tornou uma potência financeira e em diversos casos foi usada como um instrumento de fortalecimento do poder político. O Papa tinha uma fortuna maior do que muitos príncipes e os cargos eclesiásticos eram disputados pela aristocracia – muitas vezes viravam moeda de troca política. Uma das práticas mais comuns da Igreja Católica era a venda pública das indulgências, os pergaminhos que perdoavam os pecados do fiel. Muitos padres as vendiam em troca de uma doação em dinheiro a Igreja. “assim que a moeda no cofre cai, a alma do Purgatório sai”, dizia um ditado popular. Era quase como comprar um lugar no céu. No dia 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta da Igreja de Wittemberg, na Alemanha, 95 teses que criticavam a conduta da Igreja católica. Os textos denunciavam a deturpação do evangelho, a venda de indulgências e a corrupção, o enriquecimento ilícito, e a falta do celibato clerical. Além das denúncias chamavam o cristão ao arrependimento e a fé. O luteranismo também defendia a livre interpretação da Bíblia. A Igreja Romana era contra esse ponto, pois entendia que o povo não iria entender corretamente os ensinamentos de Deus e precisava seguir as orientações de um sacerdote.