Natural do município de São Martinho, Mauri Luiz Heerdt iniciou os estudos em Tubarão no Colégio Dehon, e depois fez faculdade de filosofia na Unisul. Após um período fora, quando cursou teologia, fez pós-graduação em administração, doutorado e mestrado, e pós em gestão de instituições de ensino superior, voltou ao município em 1998 para construir um currículo invejável como professor na universidade. Foi coordenador de estágio, coordenador de curso, coordenador do Ensino à Distância, gerente de ensino, pesquisa e extensão, pró-reitor de ensino, pró-reitor de extensão, pró-reitor de pesquisa e inovação, vice-reitor e pró-reitor de ensino, pesquisa e extensão. Este ano, assumiu como reitor, com gestão até 2023 e muitos projetos para pôr em prática a curto, médio e longo prazo.

Priscila Loch
Tubarão
Notisul – O que representa ser reitor de uma universidade do porte da Unisul? É um desafio? Uma realização?
Mauri – É uma função que eu exerço com muita responsabilidade e com muita gratidão. Responsabilidade é pensarmos no porte, no tamanho da Unisul, mas principalmente naquilo que a Unisul pode fazer pelas pessoas. Hoje, temos quase 30 mil estudantes, 2,6 mil funcionários. Se pensar além dos números o que pode significar para a sociedade, é de uma responsabilidade imensa. E também gratidão porque eu sou filho dessa casa. Meu pai estudou no Dehon, eu estudei no Dehon, na Unisul. Aqui construímos relacionamentos, amigos, família, parceiros muito fortes dentro e fora da Unisul. Quem me levou ao cargo de reitor foram essas pessoas, essas conexões, essas parcerias. Eu me sinto muito honrado em ser um dos reitores da história da Unisul.
Notisul – Qual a realidade estrutural e financeira da universidade hoje?
Mauri – A Unisul hoje tem três campi. O campus universitário de Tubarão, onde estão vinculadas algumas unidades, casos de Braço do Norte, Araranguá, Içara e queremos reativar a unidade de Imbituba. Além do Centro de Pós-graduação. Depois temos o segundo campus, na Grande Florianópolis, com sede na Pedra Branca e que também tem uma unidade de grande porte no centro de Florianópolis. E temos o terceiro, que é o campus universitário Unisul Virtual, que tem sede também na Pedra Branca e com 77 polos espalhados pelo Brasil. A Unisul está em todos os estados brasileiros. Todos os polos têm estruturas físicas, a maioria com parceiros, não são patrimônio. Em termos de pessoas, estamos hoje com quase 30 mil estudantes, eu digo quase porque é um número que se altera a cada dia, ainda mais nos períodos de matrículas como agora. Abrange desde o Colégio Dehon, onde temos quase dois mil estudantes, depois as graduações de licenciatura, bacharelado e tecnólogo, pós-graduação lato sensu, e a pós-graduação com mestrados e doutorados. Além disso, temos alguns cursos sequenciais e de extensão. Sobre a questão de sustentabilidade financeira, atualmente todas as organizações no Brasil passam por desafios grandes. Você acompanha diariamente a realidade das prefeituras, gestão pública e também de empresas. Não está sendo um período fácil. Para a Unisul também não está sendo fácil, nós dependemos em alguns casos do repasse de convênios com os governos estadual e federal, dependemos do pagamento de mensalidades e toda a conjuntura nacional afeta a vida das famílias, a vida das empresas, a vida das pessoas. Contudo, eu prefiro olhar pela perspectiva do desafio. Se a comunidade universitária me colocou na condição de reitor é porque me considerou uma pessoa preparada para superar esses desafios. Para isso, é preciso fazer aquilo que muitas empresas estão fazendo: ter uma estrutura menor, para poder investir mais nas pessoas, onde efetivamente os resultados acontecem. Nós também temos que fazer esse dever de casa. Sempre digo que isso não é uma opção, e sim uma obrigação. Essa é uma medida que também já estamos tomando. Por outro lado, o nosso foco é geração de novos resultados. E aí estamos terminando o planejamento de algumas novas ações em termos de novos projetos, para que possamos superar esse desafio nacional difícil do momento e termos uma Unisul perene, sustentável.
Notisul – Que projetos estão nos seus planos para desenvolver nos próximos seis anos?
Mauri – A principal questão é pensarmos no conceito de universidade que queremos. E o conceito de universidade que está expresso em nossos documentos, que está conversado, dialogado com o grupo principal de reitoria e com a comunidade universitária, é de universidade inovadora. E o que é ser uma universidade inovadora? Quer dizer em primeiro lugar fazermos diferente e melhor a cada dia a nossa gestão. Isso é ser universidade inovadora, nós temos que nos reinventar a cada dia. Por outro lado, numa segunda linha, temos que promover a inovação, com aprendizagem significativa e relevante para nossos estudantes, a cada dia melhor. É conectarmos as nossas pesquisas às realidades concretas da cidade, da região. É termos uma extensão que promova práticas, projetos que gerem valor agregado. Isso é promover a inovação. E nessa perspectiva o que já pode ser anunciado é que tudo isso começa com uma nova mentalidade. E como conseguimos formar novas mentalidades? Através de um processo educativo.
Notisul – O que merece destaque em curto prazo?
Mauri – No retorno das férias, a primeira ação nossa será uma capacitação para todos os professores, todos os gestores, nessa perspectiva da inovação. Quais as nossas grandes forças? Os professores e estudantes. Então, se com os professores e com os estudantes conseguirmos trabalhar metodologias inovadoras que impactem na vida diária da comunidade, das pessoas, das empresas, das organizações, vamos efetuar talvez a maior ação da nossa universidade, porque isso vai mudar a vida das pessoas e dos lugares. Esse processo começa logo em seguida do retorno das férias, com esse grande programa de formação. Temos 1,5 mil professores e 1,1 mil técnicos. Inovação significa também aproximarmos teoria e prática, e essa é uma das grandes características da educação de hoje, aprendemos melhor fazendo. Nessa mesma perspectiva, estamos também já trabalhando projetos com os estudantes sobre empresas juniores, por exemplo, de forma que possam ter espaço para a prática. Há outros ambientes de inovação, em que os trabalhos de conclusão dos estudantes possam transformar-se em projetos de vida, empresas, organizações. Esses projetos de inovação vão merecer um destaque inicial desde agora. Isso tudo antecedido com uma série de encontros para planejamento da reitoria, a partir da próxima semana. Apesar do grupo da reitoria estar também de férias, porque são docentes, vamos trabalhar esse planejamento da inovação para sermos uma universidade mais comunitária ainda. Eu considero a inovação uma das grandes formos de sermos uma universidade comunitária.
Notisul – Pois é, você já destacou em outras oportunidades a intenção de tornar a Unisul mais comunitária. Como fazer isso e o que significa na prática?
Mauri – Significa em primeiro lugar as pessoas terem mais acesso à universidade. A gestão do professor Salésio já trabalhou isso muito bem, e podemos aperfeiçoar através dos programas institucionais, sejam eles do governo estadual, do governo federal, como Prouni, Artigo 170 ou programas próprios da Unisul de bolsa de estudos, ou de outros programas com benefícios parciais, de 20%, 50%. Essa é a perspectiva de acesso à educação superior. Agora, também podemos proporcionar acesso de pessoas a outros tipos de produtos e serviços. Um exemplo: um curso de formação de lideranças comunitárias, que não necessariamente precisa ser uma graduação, um mestrado, um doutorado. Mas que pode capacitar as pessoas a bem gerirem uma associação de moradores, um conselho municipal, para entender o que está acontecendo no mundo, como nos posicionarmos como lideranças… São outras formas da Unisul ser comunitária. A missão de uma universidade é ajudar a resolver as dores da cidade, as dores da região. Praticamente todos os nossos cursos têm estágio, trabalho de conclusão, dissertação do mestrado ou tese do doutorado e podemos fazer com que esses trabalhos de pesquisa sejam focados nas dores das pessoas. Isso também é ser comunitário. Pela produção de conhecimento, nós apresentarmos soluções.
Notisul – Esse aspecto comunitário ocorre muito nos serviços de saúde. Tanto porque a universidade forma excelentes profissionais, como porque ‘fornece’ ajuda nos atendimentos do sistema público.
Mauri – Uma universidade educa, transforma, faz, exerce seu papel de diversas formas. Pelo processo que acontece na sala de aula e em diversos outros ambientes. E há vários ambientes importantes para nossos estudantes, sejam postos de saúde, atendimentos dentro da própria universidade, nas áreas da saúde, engenharia, gestão, jurídica, licenciaturas. A universidade educa através dos ambientes, educa através dos projetos, educa através dos processos, através do exemplo que apresenta à sociedade, pelas parcerias efetivadas… Tudo que for para o bem das pessoas, da cidade, da universidade, nós queremos reforçar. É um desejo nosso como o processo educacional e as estruturas da Unisul podem servir melhor às pessoas.
Notisul – A Unisul sempre foi uma grande parceira de Tubarão e de toda a região quando o assunto é desenvolvimento. Na sua visão, o que é necessário ainda para alcançar um patamar mais elevado?
Mauri – Chegamos a um determinado ponto em que precisamos ter clareza de um projeto para a cidade, ter clareza de um projeto para a região, e esse projeto tem que estar pautado em valores muito maiores e mais amplos até do que a cidade e a região. Por exemplo, não há mais hoje como gerir qualquer instituição sem austeridade, sem transparência, sem zelo pelas coisas. Eu diria que está na perspectiva das características de gestão. Acharia fundamental neste momento discutir junto com a cidade e a região o nosso projeto de desenvolvimento. Existem vários movimentos em andamento, mas seria bom juntar todas as forças – e foi isso que chamei de lideranças sociais. Podem unir-se os poderes executivo, legislativo e judiciário, Ministério Públicos, sindicatos, empresariado, associações de moradores, CDL, Acit, hospitais… O que todas querem, cada uma a seu modo? É o bem da cidade, é o bem da região. Se nós conseguíssemos, e a Unisul é uma parceira 24 horas dia e sete dias por semana para ajudar, colocar todas as nossas forças a serviço desse projeto, não tenho dúvida que seríamos uma região muito mais feliz, daria um salto em desenvolvimento. A imprensa também tem um papel muito importante nisso. O papel da imprensa não é concordar, muitas vezes ela é a nossa lucidez.
Notisul – Você citou anteriormente que um dos pontos para tornar a universidade mais comunitária é facilitar o acesso ao ensino superior. Mas muitas famílias não têm condições de bancar um curso ou meios de estudo para chegar até a faculdade. Essa realidade melhorou?
Mauri – Com certeza, melhorou. Inclusive pela própria legislação. Muitas bolsas hoje são concedidas por conta dessa nossa condição de universidade comunitária. Antes, a gente comprovava essa nossa condição de filantropia de outras formas. Hoje, nós comprovamos por acesso que oferecemos às pessoas. Melhorou muito, mas há espaço para melhorarmos ainda mais, tanto em bolsas, em forma de financiamentos com outras organizações financeiras. A educação acontece em boa parte na graduação, mas também pode acontecer na pós-graduação, em um curso de extensão de um fim de semana, de um mês, de um ano, pode acontecer na execução de projetos, de diversas outras formas. Nessa relação com a comunidade de Tubarão e região, podemos diversificar essas formas de vínculo e de acesso. Isso tudo faz parte do processo educacional e houve uma época em que se participava da vida universitária uma vez e depois se estava pronto para o resto da vida. Hoje constantemente se volta, para atualização, aprofundamento, capacitação, projeto. Dá de compreender esse acesso de diversas formas, não somente pela graduação. Nós vamos diversificar essas possibilidades.
Notisul – Quantas bolsas aproximadamente são oferecidas?
Mauri – Temos diversos tipos de bolsas. Tem algumas que dura a faculdade inteira, outras são semestrais. Em números mais genéricos, praticamente um terço dos estudantes da Unisul tem algum tipo de benefício, é um impacto muito forte.
Notisul – Como você falou, a Unisul Virtual tem alcance no país inteiro. Anos atrás, existia muito preconceito com quem se formava em cursos superiores a distância. Houve evolução nesse quesito?
Mauri – Com absoluta certeza, houve muita evolução. Eu comecei a trabalhar com ensino a distância em 2001, fui um dos pioneiros a trabalhar no EAD da universidade. Fui professor, tutor, conteudista, coordenador de curso, e a evolução daquela época até hoje é estrondosa, é muito grande. Em alguns setores da sociedade, ainda persiste o questionamento de será que realmente há uma aprendizagem com o EAD. Temos vários estudos que comprovam que efetivamente se pode aprender e se aprende com a educação a distância. Agora se você perguntar: todos podem fazer EAD? Talvez não, pois exige um determinado perfil, uma autodisciplina, uma autonomia muito grande. Mas também é um perfil de relacionamento pelas redes sociais, de leitura a partir dos textos publicados no modo virtual, praticamente partícipe da nossa cultura hoje. Então, a tendência, se formos olhar para outros países, praticamente não tem mais separação entre o virtual e o presencial, tanto é que essa é uma das tendências do mundo inteiro. O ensino pode ser bom em ambas as modalidades, e também ser deficitário. Na Unisul, temos uma educação a distância muito reconhecida, o Brasil inteiro reconhece a qualidade do nosso EAD. Desde que iniciamos com educação a distância, optamos por uma metodologia que nos trouxe muitos resultados em termo que qualidade. Tanto é que na avaliação do Ministério da Educação, no Enad, nunca um curso nosso do EAD tirou uma nota abaixo de 3 – vai de 1 a 5, e 3 é o nível mínimo de qualidade exigido pelo MEC, desde 2003, quando iniciamos com graduação a distância. Isso nos dá uma reputação muito grande.
Notisul – Vivemos um cenário de contingenciamento de verbas para a educação pelo governo federal. De que forma essas medidas refletem no ensino e, consequentemente, no mercado de trabalho?
Mauri – Com certeza refletiu, tanto na Unisul, quanto em qualquer organização, seja pública, privada ou comunitária. Cada tipologia tem algum convênio com o governo federal ou com o governo estadual. Nós temos, por exemplo, alunos com Fies, com Artigo 170… O atraso ou não repasse influenciou. Temos muitos projetos envolvendo o Pibid (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência). Em alguns momentos, houve atraso, em outros não houve repasse, ou houve redução. O momento brasileiro interferiu na vida da Unisul e na vida de todas as instituições. Por isso a necessidade de termos uma estrutura muito bem alinhada, muito enxuta, e ao mesmo tempo pensarmos em novas perspectivas, onde nós podemos crescer, onde podemos ter mais receitas, onde podemos criar outros vínculos, inclusive financeiros, para que a Unisul tenha perenidade também nessa perspectiva financeira.