Início Opinião Minhas memórias e a enchente de 1974

Minhas memórias e a enchente de 1974

Renata Bento Boa Hora Goulart  -  Coordenadora na Escola Fábio Silva  •  Tubarão  -  gnp36@hotmail.com
Renata Bento Boa Hora Goulart - Coordenadora na Escola Fábio Silva • Tubarão - gnp36@hotmail.com

 

Nasci em Tubarão, em 1962. Sempre morei nessa cidade. Morava na rua do Campo do Pedreira, bem pertinho da beira rio.
 
Quando eu era pequena, fazia várias travessuras, como: colocar uma pedrinha ou moeda no trilho, assustava as pessoas por onde ali passavam, assustava-as com dente de vampiro e cobras feitas de meias, não fazia nada com maldade, só brincadeira de criança. Brincava muito com os meus amigos e fazia muitas malvadezas, como essas citadas acima. Tinha 13 irmãos, sendo que um era adotivo. Vim de família humilde, mas isso nunca afetou minha felicidade. Éramos muito unidos. Sempre comia pão dormido, pois era mais barato, nunca fui de muito luxo. Estudei em quatro escolas: Fábio Silva, Gallotti, São José e Dehon. Na época que cursava o ensino médio, cada dia estudava em uma diferente. Todos os meus irmãos começaram a trabalhar muito cedo. Comecei a trabalhar com 12 anos, com 15 anos já trabalhava fora. O fato que mais me marcou foi a enchente de 1974 aqui em Tubarão (Santa Catarina). Foi a maior catástrofe ambiental do país, mas poucos sabem disso, infelizmente presenciei a dor de perder minha casa, minhas coisas que gostava tanto. Felizmente, não perdi nenhum ente querido, mas tomei as dores de meus amigos. Me emociono muito ao relembrar meus amigos tristes, pois eles perderam alguns de seus entes. Na hora da enchente, estava na sala de aula. Saí mais cedo da escola, achava que seria uma chuva grande, mas passageira, até molhava meus pés nas poças que cruzavam meu caminho. Nem imaginava que seria a maior catástrofe natural do país. Na hora da enchente, estávamos em quatro filhos. Com meus pais, seis. Saímos da nossa casa e fomos para a casa de nossos parentes na Serra do Rio do Rastro. Naquele momento, solidariedade era a palavra certa, pois a maior parte das roupas e dos alimentos era doada.
 
Depois do acontecido, olhei por dentro de minha casa e não a reconheci, pois todas as paredes estavam caídas. Me entristeci muito, pois perdi tudo que tinha. Fico apavorada ao pensar que um biólogo afirmou que, se continuarmos poluindo o rio, vai acontecer outra catástrofe tão terrível quanto a de 1974. Já faz 38 anos que isso aconteceu, mas jamais apagarei de minha memória. Hoje, tenho 52, três filhos e um neto. Espero que eles nunca passem pelo que passei. Me orgulho muito de trabalhar aqui, pois quase todos os anos de minha vida estudei na Escola Fábio Silva. Meu nome é Kátia, sou coordenadora da escola do bairro onde nasci, cresci e quero sempre continuar aqui.
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