Rafael Andrade
Jornalista – Tubarão
Falar de enchente é algo sempre importante. É muito melhor, ou menos pior, debater o assunto antes do desastre natural que contabilizar mortos, feridos, desabrigados, desalojados, prejuízos, perdas de dignidade, destruição de um povo, de uma cidade. E Tubarão, o maior município em número de habitantes da região – cerca de 110 mil – já passou por isso. A mais conhecida enchente registrada foi em 1974. Houve outras, como na década de 30 e no fim do século 19, mas, claro, sem efeitos catastróficos, pois ainda não havia tanta gente, tantas casas. Hoje, dia 24 de março de 2017, 43 anos após a maior tragédia da história de Santa Catarina, como assim muitos definem, haverá mais um seminário para justamente tentar minimizar os efeitos de um transbordamento do imponente Rio Tubarão ao longo do seu curso. Não são somente moradores e comerciantes da área central que sofrerão tais consequências, mas há muitas famílias ribeirinhas que também têm preocupação.
O Rio Tubarão nasce na encosta da Serra Geral, em Lauro Müller. A área de drenagem abrange 4.728 km², percorrendo 120 km desde suas nascentes, até desembocar na Lagoa de Santo Antônio. Foi denominado assim após a confluência dos rios Bonito e Rocinha. Ambos drenam regiões de mineração logo após suas nascentes, com extensas áreas de extração e depósito de rejeitos do beneficiamento do carvão.
A bacia hidrográfica do Rio Tubarão pertence à vertente de drenagem Atlântica. Apresenta um conjunto lagunar composto pelas lagoas Santo Antônio dos Anjos, Imaruí e Mirim. É formada pelos rios Rocinha, Bonito, Oratório, Capivaras e Hipólito. Faz limite com a vertente do interior por meio da Serra Geral, tendo as seguintes coordenadas geográficas como limites: 27º 48’ 00” e 28º 48’ 08” de latitude Sul, 48º 38’ 18” e 48º 31’ 48” de longitude Oeste. É a mais expressiva bacia hidrográfica da Região Sul de Santa Catarina, e tem uma área de 5.923 km², aproximadamente.
Os limites da bacia hidrográfica do Rio Tubarão englobam 18 municípios: Lauro Müller, Orleans, São Ludgero, Braço do Norte, Grão-Pará, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima, Anitápolis, São Bonifácio, São Martinho, Armazém, Gravatal, Capivari de Baixo, Tubarão, Pedras Grandes, Treze de Maio, Jaguaruna e Sangão. A população destes municípios soma cerca de 300 mil habitantes. Então, é preciso dar atenção exclusiva e contínua não somente à Cidade Azul, mas para todos os municípios citados. Se chove forte por lá, o problema também poderá surgir por lá, e não cairá tudo aqui, como assim muitos falam.
Mas voltemos à pauta da Grande Enchente de 74. Não me enganou o Exército, a Ditadura Militar à época, a prefeitura (então gerenciada pelo médico Irmoto José Feuerschuette), ou o 19º governador de Santa Catarina, o engenheiro civil Colombo Machado Salles, que, aliás, é de Laguna, ou o próprio general Ernesto Beckmann Geisel, o 29º presidente da República na década saudosa de 1970 (comandou entre 15 de março de 1974 e 15 de março de 1979). Qual foi o discurso uniforme deles, sobre o principal balanço de uma pós-catástrofe como aquela, o número de mortos: 199. Não foi. Tenho depoimentos de muitos familiares que perderam pai, mãe, filho, esposa, primos, tios, avós, principalmente da região interiorana, como no Sertão dos Mendes, por exemplo, que foram resgatados somente três dias depois, que houve dezenas de outras mortes. A falta de um denominador concreto sobre tal dado, e o emplacamento ordenado do número 199 das autoridades à época, faz-me crer que não podemos e não deveremos discutir tal dividendo, pois há possibilidade sim de evitarmos, mas é preciso mais investimento em prevenção, em uma megadragagem, em um plano de evacuação em massa, em melhores aparelhos meteorológicos na região, em centrais de alerta com profissionais gabaritados no assunto, que possam no avisar e nos nortear para onde ir e o que fazer. Precisamos de mais Maurícios da Silva, Rafaéis Marques, Amadios Vettoretti, entre tantos outros. Tubarão se reergueu das lamas, cresceu, voltou a florescer às margens do seu magnificente rio.
Chorei devido à Grande Enchente, não quero chorar novamente. E há quase 110 mil irmãos que também pedem mais atenção.