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Nicarágua é o Brasil ontem

Víctor Daltoé dos Anjos
bacharel em Geografia pela UFSC

victordaltoe@gmail.com

Um partido infiltrado nas instituições do Estado em benefício próprio. Goles generosos de recursos públicos para grandes empresários amigos. Despejo de assistencialismo sobre os pobres na busca de vitórias eleitorais. Tudo isso azeitado pelo intervencionismo estatal. Sim, estamos falando da Nicarágua do presidente Daniel Ortega, por mais que essas características cheirem ao passado recente de certo outro país tropical.

Aos gritos de “Daniel y Somoza son la misma cosa!”, jovens se lançam nas ruas contra o atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, populista de esquerda e líder histórico do sandinismo.  Comparam-no aos ditadores populistas de direita da família Somoza, a qual governou o país centro-americano entre 1933 e 1979. Sob as ordens do governo, a polícia passou dias abrindo fogo e fúria sobre os atuais manifestantes.

Os sandinistas, dos quais Ortega é líder histórico, tiveram sucesso pela marginalização histórica de boa parte da população nicaraguense por parte de suas elites políticas corruptas, ditatoriais, truculentas e encrustadas no Estado. Soube apelar aos pobres e marginalizados na luta contra a ditadura de 40 anos da família Somoza e utilizou o discurso messiânico da Teologia da Libertação para arregimentar grande rebanho de fiéis.

O partido liderou a derrubada do último ditador Somoza em 1979, iniciando a abertura democrática. Daniel Ortega governou o país entre 1985 e 1990. De volta ao governo, em 2007, Ortega aprovou o projeto da reeleição ilimitada em 2014 e se beneficiou com o veto da Justiça Eleitoral à principal chapa oposicionista a ele nas eleições de 2016. Enquanto isso, passou a receber o petróleo subvencionado do regime bolivariano do venezuelano Nicolás Maduro. Assim, o presidente nicaraguense se junta à série de líderes nacionalistas que se elegeram democraticamente nas últimas décadas, mas que passaram a flertar com o autoritarismo, a corrupção e a busca pela perpetuação no poder. Putin, na Rússia; Erdogan, na Turquia; Duterte, nas Filipinas; Chaves – que Deus o tenha – e Maduro, na Venezuela. A lista só cresce.

A repressão policial do governo foi dura. Pelas estimativas de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, jazem despejados pelas ruas da capital nicaraguense, 50 corpos, cobertos com o seu lençol diáfano da morte. Se Ortega conseguir dormir tranquilo com tantos esqueletos enfiados dentro de seu armário, saberemos que “Daniel y Somoza son la misma cosa”.

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