A funcionária Maria diz à paciente que seu problema se resolve no primeiro andar. Mauro, do primeiro andar, devolve a paciente ao térreo, onde Maria orienta o doente a novamente subir os dois lances de degraus empinados. Novamente devolvida, a negra Lourdes não suporta a balbúrdia e grita: “não sou palhaça”. O chefe, do térreo, que lia jornal em pé, aproxima-se: “mas é aqui mesmo!”.
Os nomes acima e embaixo são fictícios, mas retratam este e outros episódios reais vivenciados durante nove horas dentro do Hospital Celso Ramos. Um senhor, 75 anos, estava na sala de atendimento havia seis horas, aguardando para ser chamado pelo médico. “Mas estou aqui no hospital desde as 21 horas de ontem; vim do oeste”. No banco, uma senhora resolve esticar-se para minimizar a fadiga da viagem e da insônia, soltando a cabeça no colo do filho.
A morena Elizete não tem sorte. Chega de Itajaí para marcar uma consulta com especialista.
– Só amanhã, senhora, surpreende a atendente.
– Mas eu vim de Itajaí só pra isso, moça?
– Lamento; cumpro ordem.
Elizete guarda a carteira do SUS e de cabeça baixa afasta-se do guichê, expressando sua cólera nos pingos de lágrimas. O jovem João, sentado bem próximo, observa: “a tecnologia ainda não chegou ao hospital”. Sim, a internação depende das altas de doentes.
– Nós temos a maior da boa vontade, mas não podemos fazer milagre – reage um funcionário, sem esconder melancolia diante dos embaraços que só têm uma explicação: gestão decadente.
O quarto foi liberado. “Ei, você pode subir e se apresentar no segundo andar”. Já passa das 11 horas e entro no quarto 14, onde um cidadão geme com dor nos pés, cujos ossos se esmigalharam em um acidente. O sofrimento o impediu de fechar os olhos durante a madrugada, mesmo com o frescor ensejado pelo forte vento que transpõe a janela, carregando junto a poeira armazenada nas aberturas.
A servidora entra no quarto e coloca sobre a mesa duas bandejas de almoço. A irmã do paciente aflito não esconde o vazio no estômago ao farejar a refeição.
– A senhora pode ficar com a minha bandeja. Vou passar por uma microcirurgia e preciso estou em jejum desde às 23 horas de ontem – disse-lhe.
– Mas por que então eles trouxeram comida para o senhor?
– Certamente porque ignoram a minha cirurgia.
– Eu ia sair para comer alguma coisa, mas o guarda não deixaria eu retornar.
– Como assim?
– Saiu não entra mais.
– Mas seu irmão não pode ficar sozinho.
– Pois é.
A enfermeira entra o quarto com uma maca e me entrega uma semi-camisola. Coloquei-a e, no impulso para me deitar na maca, chega um enfermeiro:
– Houve engano. É o paciente do outro quarto.
Limitei-me a comprimir os ombros e alongar a espera.
– Senhora, a cirurgia estava programada para as 13 horas e já são 14 – indaguei à enfermeira.
– Lamento, senhor, mas é o centro cirúrgico que manda.
– Mas a senhora não acha que eu deveria ser comunicado, até para me acalmar?
A enfermeira concorda, enrugando-se e condensando os lábios, deixando transparecer que a comunicação com o centro cirúrgico é caótica.
Posto-me à porta do quarto e nisso aproxima-se uma enfermeira, passiva de conversa.
– Não estaria faltando organização neste hospital? – pergunto.
Ela admite esboçando sorriso melancólico. E avança com exemplo:
– Este rapaz que está internado nesse quarto, em frente, tem 15 anos e foi internado dias antes do Natal. Foi treze vezes levado ao centro cirúrgico para uma operação simples no braço e retornou 13 vezes. Anteontem, finalmente, ele foi operado.
– Por que 13 vezes?
– Não sei; só o centro cirúrgico pode explicar.
Passa das 14 horas e sou levado em maca para o centro cirúrgico, onde a equipe de médicos e enfermeiros me recepciona com entusiasmo, embora eu não esconda apreensão.
(Continua na edição de amanhã).
