Sibeli do Amaral – Professora de história, Armazém
Quando se fala em Ditadura Militar no Brasil, o que logo nos vem à cabeça são os conflitos travados nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, quando se fala de Ditadura Militar em Santa Catarina, muitos acreditam que nosso Estado passou imune aos mais de 20 anos de Chumbo.
O episódio mais conhecido ficou marcado na história como Novembrada, e ocorreu no dia 30 de novembro de 1979, em Florianópolis, na visita do então general-presidente da república, João Batista Figueiredo, que foi recepcionado pelo governador do Estado, Jorge Konder Bornhausen.
Uma multidão esperava na Praça 15 de Novembro o chefe maior do país, aparecer na sacada do Palácio Cruz e Sousa, a então sede do governo catarinense.
Semanas antes da chegada de Figueiredo à capital, a cidade já estava toda enfeitada para a sua recepção, placas e faixas com saudações do tipo “João, o presidente da conciliação” estavam espalhadas por todo lado e até um samba foi composto para recebê-lo.
Todos em Florianópolis estavam prontos para receber o presidente da “conciliação”, menos o Diretório Central de Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc).
O Brasil estava sob uma ditadura militar já fazia 15 anos, o povo estava descontente com aquele regime que torturava e matava e que estava entrando em desgaste e decadência.
O Milagre Econômico de 1973 estava entrando em crise, arrocho salarial, alta no custo de vida dos trabalhadores e o enorme gasto do governo para a recepção do presidente em Florianópolis. Com tudo isso, os estudantes queriam aproveitar a visita de Figueiredo para demonstrar seu repúdio.
Antes mesmo de ele aparecer na sacada do Palácio, uma multidão o esperava e a manifestação já havia começado aos gritos dos manifestantes, que diziam: “Abaixo à fome”, “Chega de sofrer, o povo quer comer”.
Quando surgiu pela primeira vez recebeu uma grande vaia e mais protestos. Alto-falantes do governo tentaram abafar, porém, o protesto só aumentava. Os “Abaixo à ditadura” e “Abaixo Figueiredo, o povo não tem medo”, entre outros gritos mais ofensivos ao presidente, só aumentavam. Assim como acrescia a repressão da PM aos manifestantes. Figueiredo, ouvindo os palavrões dentro do Palácio, resolve ir ao povo para “conversar” e os palavrões continuaram.
Entre chutes, empurrões e ponta pés, ele foi até um conhecido bar, o Ponto Chic, nas proximidades, para mais um ato formal: tomar cafezinho em um bar famoso da cidade e conversar com seus frequentadores, ao sair, os manifestantes continuavam aos gritos de ordem. Alguns ministros foram agredidos e o próprio presidente levou um empurrão. Rapidamente, entrou no carro oficial do governo, que saiu em alta velocidade.
Apesar de o presidente não permanecer mais ali, muitos manifestantes ainda estavam na Praça, jogaram pedras contra o Palácio e outros depredaram casas e lojas próximas.
Os dirigentes do DCE da Ufsc não imaginavam as proporções que a sua manifestação chegaria. Como o país vivia em um regime ditatorial e repressivo, fugiram para o interior do Estado, mas logo foram presos e após as manifestações e julgamento foram soltos.
A Ditadura Militar só iria acabar seis anos depois, mas a Novembrada de Florianópolis foi um ato em busca de democracia perdida no país há alguns anos. O povo aderiu à manifestação, que começou com alguns estudantes e que acabou se estendendo e ficou marcada na história de Santa Catarina e do Brasil.