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O drama de um homossexual

Olhou-me com raiva e disse em tom desafiador: – Sua Igreja é estúpida e insensível. Eu não pedi para entrar na condição em que vivo. Foi acontecendo e ninguém me ajudou. Quando percebi, já era homossexual. E não consigo deixar de sê-lo. É muito fácil dar palestras sobre uma coisa que você nunca experimentou na própria carne…

Fitei-o com seriedade e disse:
– Aceito sua ira, aceito sua crítica e aceito a acusação. Às vezes, quando a gente tenta explicar ou combater o homossexualismo, acaba criticando e combatendo os homossexuais. Como se fossem todos criminosos e desavergonhados.
E ele: – Tá tudo errado, a começar já de são Paulo, que, sem fazer distinção nenhuma, diz que somos todos candidatos ao inferno. Quer inferno maior do que não querer ser o que se é?

E escutei um pouco de sua dor e de seu drama: – Somos párias. Não posso frequentar qualquer grupo. Não posso fazer as amigas que desejo. Não posso ter amigos a não ser no meu ambiente. Sinto a rejeição dos homens, quando me aproximo. Sinto a reprovação nos livros, nas revistas, nos discursos de tudo que é religião. Os sociólogos tentam analisar, mas não oferecem nenhuma solução. Os psicólogos não têm respostas, só análises. Não há remédio que mude a gente.

E a gente nem quer mudar, porque acaba ficando uma segunda natureza. Já tentei me converter, mas alguma coisa em mim não deixa que eu viva como homem, nem como mulher. Confundem travesti com homossexual. Confundem tendência com atos. Sou condenado antes de qualquer gesto, porque tenho a fama de ter feito o que raramente fiz. Minha aparência me condena. Meu jeito me condena. Meu modo de falar aconteceu. Não fui a uma escola aprender a ser bicha. Não gosto desses rótulos. Odeio esses nomes. Não me exponho. Não fico nas ruas dando bandeira e fazendo baixarias. Mas não posso esconder o fato de que as mulheres não me despertam a libido, e os homens sim. Nunca desrespeitei nem seduzi um menino. Não posso me confessar, porque não posso prometer que não falharei. Tento me controlar, mas simplesmente não consigo. Está na cara, está no meu jeito. A ciência não diz as coisas com clareza. Se é doença, sofro de uma doença que não tem cura. Se é sem-vergonhice, espero que provem que eu faço isso por falta de vergonha. Se é condicionamento, eu queria saber porque eu acabei condicionado e meu irmão não. No fundo, não passo de um pária, um leproso. Agora com a Aids como epidemia, novamente, e mais ainda, não há roda social que eu possa frequentar senão a dos do meu círculo. É tudo muito hipócrita. É tudo muito cruel. E não é nem metade do que a gente realmente sofre…
Perguntei como poderia ajudar, sem magoar ainda mais, um homossexual:

Respondeu com ironia: – Admita que não tem respostas e que não entende. Fale menos contra nós, reze mais por nós e lute para que se descubra uma resposta para aqueles que não querem ser homossexuais. Parem de jogar livros e leis e sabedoria em nossas cabeças e procurem entender melhor que a maioria de nós não se fez homossexual, fomos feitos aos poucos.

Desde então, tenho falado menos, criticado menos, não acho graça nenhuma nos personagens que os ridicularizam e tenho orado por aqueles que conheço.

Não acho certo, mas infelizmente também não acho um jeito certo de ajudá-los a não ser quem são. Os homossexuais precisam muito mais de ajuda séria do que de ensaios críticos…

De vez em quando ainda ressoa aos meus ouvidos a sua frase: “A maioria de nós não se fez homossexual. Fomos feitos aos poucos”… É bom lembrar que essa é uma dor terrível. A dor de “não ser” para a maioria das pessoas. Minha igreja precisa encontrar uma linguagem que não os magoe, ainda que não os aprove. Espero que a encontremos, todos nós. 

Do livro: “A dor que dói na juventude”, do Pe. José Fernandes de Oliveira (Pe. Zezinho,scj).

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