
Mirna Graciela
Tubarão
A partir do século 19, com o avanço da química, drogas de vários tipos começaram a ser fabricadas. No século seguinte, o mundo conheceria invenções como a cocaína, o LSD, a heroína, o ecstasy e a metanfetamina. Porém, desde o início de 2000, uma nova geração de drogas sintéticas, também chamada ‘legal highs’ (drogas legais), surgiu como mais potente e perigosa do que as anteriores. O pior, mais fáceis de produzir e com investimento menor.
Hoje, aparecem com grande frequência entre jovens elitizados, na grande maioria, nas festas eletrônicas, conforme a psicóloga de orientação psicanalítica Marília Salvalaggio. “Eles não compreendem como algo poderoso que pode trazer um malefício e dependência, tratam como se fosse uma droga inofensiva”, alerta a profissional que atua há 22 anos em Tubarão.
Infelizmente, muitos acreditam ser menos viciante e ocasionar menos danos aos usuários, mas seus efeitos são tão devastadores quanto os de outras drogas pesadas. Segundo Marília, são um dos motivos de paradas cardiorrespiratórias nos jovens, com um índice altíssimo. “Eles adquirem uma sensação de potência tão grande e alucinógena, que os mantêm em um estado que parece não estarem drogados, mas sim vivendo uma realidade”.
Então, colocam-se em risco, ao perigo, como se nada fosse atingi-los. Dirigem em alta velocidade, ficam mais de um dia sem dormir. “É destruidora dos neurônios, as pessoas não têm consciência de como vai atingir sua personalidade e dizem ‘quando eu quiser, deixo’, mas todos os fins de semana vão atrás”.
Como os pais devem observar?
Os pais devem proteger, orientar e ver com quem seus filhos andam. Para a psicóloga, é essencial este acompanhamento. “São vários aspectos a serem observados. Por que tantas horas sem dormir, os olhos avermelhados, a dilatação da pupila, o gasto financeiro”, orienta Marília.
O tratamento distinto para cada tipo de droga
As técnicas aplicadas no tratamento são diferenciadas, conforme o tipo de entorpecente utilizado pelo usuário e, com isto, a sua postura diante da dependência. Marília percebe que são públicos com personalidades distintas, então o modo de abordá-los é bem complexo. “A abordagem não é semelhante. A pessoa que fuma maconha ou usa cocaína, ou ambos, já tem uma crítica sobre o que faz, tem noção do mal e precisa se livrar daquilo, mas é difícil. Por outro lado, em relação às drogas sintéticas, o indivíduo não possui crítica, não se considera um usuário. Acha algo esporádico, não tem consciência dos riscos que se coloca”, explica.
A entrada precoce dos jovens
Para o educador e presidente do Conselho Municipal de Segurança de Tubarão (Comset), Maurício da Silva, os adolescentes e jovens estão ingressando cada vez mais precocemente no mundo das drogas. Ele garante que a prevenção é mais eficiente e custa menos do que a repressão. “É isto que propomos entre as várias atribuições do Gabinete de Gestão Integrada, está de acordo com nossa temática. Formular políticas públicas, propondo intensificar os limites e valores nas escolas e nas famílias”, esclarece.
O educador afirma categoricamente que todo o ambiente desregrado, seja familiar, escolar ou recreativo, é um estimulador para o uso de drogas entre adolescentes e jovens. Porém, há ressalvas. “Isto não é uma regra, pode ocorrer o inverso, crianças criadas em ambientes favoráveis também podem ir para o lado ruim. Mas, são mais suscetíveis quando não há limites e valores”, conscientiza.
“A família também precisa de acompanhamento”
Uma história de 25 anos. Assim foi a experiência do aposentado Lúcio Manoel da Silva. Ele manteve contato com dependentes químicos durante este período. “Abri a primeira sala em Tubarão. O Movimento Porta Aberta, depois criamos o grupo Pirâmide, uma extensão do movimento, funcionava junto à paróquia do bairro Humaitá”, lembra Manoel, que atua hoje como diretor comercial de uma empresa de transportes, mas ainda realiza palestras e não deixa de atender pessoas que passam pelo problema. Ele afirma que os dependentes químicos precisam lidar com isto para o resto de suas vidas, a exemplo do alcoolismo. “Entre 20 a 30% conseguem uma recuperação, porém quando o tratamento vai até o fim. E os cuidados devem continuar, independente disto, em uma comunidade terapêutica ou algo semelhante”, aconselha. Este trabalho, salienta Lúcio, deve ser estendido também à família, pois quando um dependente fica doente, seus parentes também adoecem.
972 comprimidos foram apreendidos em uma ação neste ano
Uma das últimas grandes apreensões recente na região ocorreu em janeiro deste ano, em Braço do Norte. Os policiais apreenderam 972 comprimidos de ecstasy, quando duas pessoas foram presas em flagrante. A operação foi realizada pela Polícia Civil de Braço do Norte, em conjunto com a Agência de Inteligência (AI) e o Pelotão de Patrulhamento Tático (PPT) da cidade e a Polícia Militar de Tubarão. Durante a abordagem, um deles colocou um pacote de drogas na boca. Os policiais conseguiram retirá-lo e constataram que havia farelos de ecstasy. O rapaz tentou mastigar os comprimidos e partes foram engolidas. Isto para tentar escapar do flagrante. Em função disto, ele passou mal e foi levado para o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão. Um foi preso em Braço do Norte e outro na Cidade Azul. Conforme o delegado responsável pela Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Tubarão, Rubem Antônio Teston da Silva, são drogas que, infelizmente, estão encontrando uma grande aceitação entre os jovens com condições econômicas avantajadas, sobretudo em meio a festas com música eletrônica. “Elas contribuem com todos os problemas de saúde pública originados pelo uso deste tipo de substância ilícita e para os reflexos causados pelo tráfico.
Alguns tipos de drogas sintéticas
GHB – (sigla de ácido gama-hidroxibutírico), também conhecido como “ecstasy líquido”. Versão sintética de um neurotransmissor que ocorre naturalmente no organismo humano, é um neurotransmissor excitatório. Efeitos iniciais: euforia, aumento do desejo sexual e da sociabilidade. Basta um pequeno aumento na dose para que a substância ganhe efeitos sedativos, invertendo sua ação de excitatória para inibitória. Não é incomum que cause várias horas de sono profundo e, logo depois, um despertar repentino. Doses altas podem causar convulsões, vômito, inconsciência e uma diminuição perigosa do ritmo respiratório. O consumo da droga com bebidas alcoólicas causa um atraso em seus efeitos e pode ser fatal, pois o usuário tende a consumir uma quantidade maior achando que o “barato” ainda não veio por causa da dose pequena.
LSD – (sigla de ácido lisérgico dietilamida). Afeta um tipo específico de “fechadura” química dos neurônios, fazendo com que um subsistema do cérebro funcione muito acima do que deveria. É possível que uma única área-alvo seja responsável pela maior parte dos efeitos da droga alucinógena, como a impressão de que objetos inanimados ganham vida ou de perda da diferenciação entre o “eu” da pessoa e o mundo exterior. Além disto, a droga causa insensibilidade corporal, paralisia, náusea e tremores. Há relatos de que as “viagens” associadas à droga podem voltar até anos depois de um único episódio de uso, colocando o usuário em sério perigo se ele estiver, por exemplo, andando na rua ou realizando qualquer atividade que envolva precisão e risco.
Ecstasy – Cientificamente conhecida pela sigla MDMA, virou quase sinônimo de raves e música eletrônica. Sua ação se direciona principalmente sobre outro sistema de troca de mensagens químicas do cérebro, o que envolve o neurotransmissor serotonina. O ecstasy basicamente cria uma hiperatividade antinatural desse sistema, o que tem uma série de efeitos no corpo e nas percepções do usuário. O uso é acompanhado de uma sensação de euforia e do aumento da sensibilidade dos sentidos, mas o bem-estar pode esconder uma série de perigos. O organismo pode simplesmente superaquecer, sofrendo uma desidratação severa ou um aumento perigoso da pressão sanguínea. O ecstasy também é neurotóxico, ou seja, pode danificar de forma temporária ou permanente os neurônios.