Início Opinião Outro olhar sobre a pátria cada vez mais amada

Outro olhar sobre a pátria cada vez mais amada

As comemorações da Semana da Pátria já passaram, mas não passa o nosso dever de cidadão de estarmos atentos e alertas aos movimentos da realidade nacional. Ao mesmo tempo que evoco a responsabilidade de meu dever cívico com minha pátria, também mergulho em recordações da infância, quando tudo isso tinha um sentido mais idílico. Os desfiles na avenida, a bandeirinha na mão, o impressionismo maciço dos desfiles militares, os cavalos garbosos, os oficiais elegantes e as tropas perfiladas e disciplinadas nos ensinando um Brasil ordeiro e progressista aos olhos de quem governava. 

Depois, desfilávamos nós, escolares, sentindo-nos heróis. Mas hoje vemos que os heróis podem existir e estar na frente de um processo de um Brasil mais democrático e justo. Um Brasil mais presente e não mais o país do futuro. “Brasil, mostra tua cara…” A música de Cazuza ainda ressoa na voz de Gal Costa, evocando a pátria amada. Isso era lá no início dos anos 90.  Mas ao olharmos em volta, hoje, parece que vemos o início do cumprimento daquela “profecia”. 

Vivemos uma série de crises: de modelo, de autoridade, de sentido, de gerenciamento. Vivemos, talvez pela primeira vez, de uma forma efetiva, a possibilidade de vivenciarmos um Brasil mais verdadeiro. Pela primeira vez, estamos a assistir, ainda meio adormecidos, a maior apuração da corrupção já vista em nossa história. Empresários, executivos, políticos, altos escalões sendo alvos de investigação, prisão e desmascaramento.

Uma limpeza suprapartidária. Ao mesmo tempo, também vemos avanços sociais: distribuição da riqueza, socialização de oportunidades, acesso ao ensino superior. Hoje, além de “passarmos a pátria a limpo”, estamos em tempo também de rever nossa noção e nosso sentimento de brasilidade à medida que cresce a consciência nacional e se fortalece a identidade do ser brasileiro, para muito além de ideologias ou polarizações partidárias, um Brasil inteiro.
Unir essa brasilidade significa nos reconhecermos cada vez mais como nação indígena e afrodescendente também. Somos filhos deste tríplice tronco indígena-africano-europeu, mas, pela superioridade política, militar e técnica, este último manteve a hegemonia na identidade nacional.

Hoje, grandes passos se dão na direção da inteireza de nossa identidade, do reconhecimento da multidimensionalidade de nossa cultura e o quanto somos de verdade negros, indígenas e europeus no sangue, na dança, na espiritualidade, na culinária, na música, na literatura, na criatividade, na alegria, na arte do improviso e da flexibilidade intelectual, na inteligência emocional, na afetividade, no gosto de tomar muitos banhos e em tanta coisa que somente nós, brasileiros, somos graças a essa multietnicidade, que começou com os três primeiros e depois recebeu tanta riqueza com a vinda de outros povos, como os libaneses, sírios, turcos, japoneses e tantos outros.

Certamente, por essa plena miscigenação é que temos nosso espírito universalista, antissectário e propenso à paz e à solidariedade. É com esse olhar que devemos pensar neste Brasil presente, contemplando a multidimensionalidade da nossa cultura. Viva a pátria amada! Viva o Brasil!

 

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