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Pai: ainda necessário?

Apesar de já termos celebrado o Dia dos Pais, quero refletir sobre esta figura, pois, como popularmente falamos “dia do pai é todo dia”. Mas será mesmo? Se Jacques Lacan (1901 – 1981) estava certo quando, na década de 60, anunciou a “evaporação do pai”, o que sobrou dele hoje?
 
O conflito de gerações e a emancipação precoce dos filhos em relação aos pais acelerou, nas últimas décadas, a crise da figura paterna. Isto se deve, em grande parte, à ausência do pai ou em razão de que este se tornou mais infantil que os próprios filhos. Mas, esta é uma explicação simplista.
 
Massimo Recalcati, renomado psiquiatra italiano, no livro Il Complesso di Telemaco – Genitori i Figli dopo Il tramonto del padre (O complexo de Telêmaco – Pais e filhos depois do declínio do pai, em tradução livre), propõe um nova forma de compreender a figura paterna na hipermodernidade.
 
Segundo o autor, nos últimos anos, estamos presenciando uma nova e urgente demanda pelo pai, que vem diretamente das instituições e das relações familiares mais básicas; ou seja, há uma redescoberta da importância do ser pai e de sua presença na família. Esta demanda se opõe às figuras tradicionais de contestação da paternidade propostas por meio dos personagens mitológicos de Édipo (Freud) e Narciso (Guattari e Deleuze) que, ao seu modo, buscam “combater” a figura paterna. Édipo experimenta o pai como obstáculo para a realização da sua satisfação; é parricida. O filho-Narciso curva a ordem familiar à lei arbitrária dos seus caprichos; espelha-se nos objetos que consome, com o doloroso resultado do esvaziar-se de toda força vital.
 
Estes símbolos mitológicos não conseguem exprimir a novidade do tempo presente. Mas é também a partir da mitologia grega que surge um símbolo para este momento: Telêmaco. Filho de Penélope e Ulisses, Telêmaco nasce pouco antes de seu pai ir lutar em Troia, onde passou longos anos.  Neste período, o pequeno Telêmaco, na Ilha de Ítaca, espera dia após dia, ansiosamente, o retorno de seu pai para conhecê-lo e, assim, poder desfrutar da paternidade plenamente como filho e herdeiro.
 
Telêmaco representa “o ícone de filho” por excelência; daquele que espera melancólico, mas confiante, o retorno de Ulisses. Telêmaco tem olhos atentos e invoca a lei do pai, a Lei da palavra que só pode trazer de volta à justiça à Ítaca. Por causa de sua humanidade e vulnerabilidade, Ulisses não pode mostrar-lhe o sentido último da vida, no entanto, graças ao testemunho de sua própria experiência, ele ainda será capaz de mostrar ao seu filho que a vida pode ter significado.
 
O que ocorreu com o herdeiro de Ítaca acontece, em parte, conosco. “Nós já fomos Telêmaco”, escreve Recalcati, mas os jovens telêmacos de hoje são diferentes do romance homérico: não são filhos de Ulisses, não esperam em herança um reino, ao contrário, são filhos da crise, da desocupação, do individualismo e dos meios virtuais de comunicação. Nosso momento histórico torna urgente e necessário que os filhos herdem e adquiram o testemunho do pai. Telêmaco – recorda o autor – não é o nosso modelo porque nos mostra o que herdar, mas porque representa a forma certa de herdar.
 
Se a ausência é a estrutura constitutiva do ser pai, existe, todavia, um modo de fazer-se presença que torna possível a filiação, pois o que faz um genitor ser pai é a transmissão do testemunho que passa por meio da palavra e que reelaborada retrospectivamente. Faz-nos quem somos.
 
Enfim, se Telêmaco é ou não o melhor ícone para relação hipermoderna entre pais e filhos o tempo nos mostrará, mas, já no presente, nos faz repensar esta relação tão estreita e necessária que, por vezes, é conflituosa e difícil.
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