Do outro lado do Atlântico, latitude 38, está a Ilha do Pico, a segunda maior Ilha do arquipélago dos Açores e quase do tamanho da nossa Ilha de Santa Catarina. Pico é a montanha que dá nome à Ilha e domina absoluta tudo em seu redor. Força telúrica! Ergue-se majestosa, no Atlântico Norte, cheia de segredos, mistérios e sensualidade na sua forma que parece um mamilo imenso, rodeado por uma auréola de nuvens que se movimenta num suave bailar. A visão da luminosidade rósea das nuvens abraçando a montanha no entardecer é um espetáculo indescritível. Nesta Ilha “morena” ou “negra” de solo vulcânico é deslumbrante a paisagem da cultura da vinha desenvolvida na sua parte ocidental e classificada pela Unesco no dia 2 de Julho de 2004 como Patrimônio da Humanidade. Os muros geométricos dos “currais” de lava construídos em volta das vinhas para proteger dos ventos e preparar o plantio da videira cobrem uma área de 154,4 ha como uma manta quadriculada e muito lembram o serpentear das taipas na Serra Catarinense. Sim, “da pedra de fez vinho!” Lá e cá o vinho é uma questão de sobrevivência e sempre será uma paixão nesta relação ímpar do homem e a natureza. Não é sem razão, que os municípios da Ilha do Pico são geminados a São Joaquim.
Quando os açorianos picarotos celebram os dez anos da extraordinária e belíssima Paisagem da Cultura da Vinha como Patrimônio da Humanidade nós, catarinenses, festejamos a excelente qualidade dos vinhos finos de altitude, reconhecidos nacionalmente, que a cada safra e a cada geração solidifica uma história de lutas, de desafio do homem no amainar o solo, plantar os bacelos, enxertar, corrigir falhas, assistir brotar os verdes rebentos, podar as parreiras, acompanhar a maturação e colher a uva no momento ideal. Depois, o vinho faz-se na vinha diz o dito popular.
Por tudo aqui dito, não reluto em afirmar que, em Santa Catarina, a Paisagem da Cultura da Vinha é Patrimônio dos catarinenses e a sua história revela essa longa caminhada na conquista de seu espaço sócio-econômico, já que, no âmbito sócio-cultural, existe um conjunto de manifestações de cultura popular associadas à época das vindimas e identificadas na gastronomia, nas músicas e danças, nos usos e costumes do cotidiano que refletem a riqueza do patrimônio cultural de natureza imaterial.
Não poderia deixar de citar três nomes que fazem parte da história da vitivinicultura catarinense e cada um, no seu tempo, foram empreendedores na cultura da vinha, na produção do vinho e na sua comercialização. Da memória cultural destaco, do passado, Josaphat Lenzi, imigrante italiano trentino, que nos primórdios do século XX, na cidade de Lages, dedicou-se à produção de vinhos de excelente qualidade como o “Chianti Lenzi”, cuja fama ultrapassou fronteiras. Do presente, o Desembargador e escritor, Edson Nelson Ubaldo, que, em 1981, a partir de Campos Novos, foi pioneiro na produção de vinhos finos de altitude, com viníferas européias, sendo agraciado com a Medalha Anita Garibaldi, outorgada pelo Estado de Santa Catarina. Inegável, também, a grande contribuição do empresário criciumense Manuel Dilor Freitas, fundador da Vinícola Villa Franccioni em São Joaquim, que acreditou e apostou num grande sonho – o desenvolvimento da vitivinicultura na Serra Catarinense. Numa grande cumplicidade e amor à terra serrana esses pioneiros, fizeram nascer do solo basáltico o néctar da vida – o vinho.
