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Pesca com botos em Laguna avança para reconhecimento nacional

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A tradicional pesca cooperativa entre pescadores artesanais e botos em Laguna, no Sul de Santa Catarina, vive um momento decisivo. Considerada um dos raros exemplos mundiais de cooperação interespécies entre humanos e animais selvagens, a prática avança para se tornar Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, com processo em fase final junto ao Iphan.

A interação, já reconhecida pela imprensa mundialmente, que ocorre há mais de 150 anos segundo relatos orais, envolve botos-da-tainha da espécie Tursiops gephyreus, que auxiliam os pescadores a localizar e cercar cardumes de tainha nas águas do canal lagunar. Em troca, os golfinhos se beneficiam da desorganização dos peixes provocada pelas redes, facilitando a alimentação.Pesca com botos em Laguna

O evento pode ser registrado na lagoa, nas proximidades do Iate Clube, com os pescadores embarcados em canoas, ou ainda nos molhes, com os pescadores dentro da água.

Uma “dança” entre homens e botos

A dinâmica da pesca é marcada por uma sincronia precisa. O boto localiza o cardume e o empurra em direção à margem. Em seguida, emite um sinal característico — como um salto ou batida de cauda — que indica o momento exato para o lançamento da tarrafa. Assustadas, as tainhas tentam fugir e acabam se tornando presas fáceis para os botos.

O conhecimento necessário para interpretar esses sinais é transmitido de geração em geração entre os pescadores. Já entre os botos, a técnica também é aprendida dentro de uma linhagem específica, passada de mãe para filhote. Nem todos os golfinhos da região participam da pesca cooperativa.

Patrimônio cultural e identidade local

Em Laguna, os botos são reconhecidos como indivíduos. Muitos recebem nomes, como Scooby, Figueirinha e Galante, e são identificados pelas marcas na barbatana dorsal. Desde 1997, eles são oficialmente declarados Patrimônio do Município de Laguna por lei municipal.

Atualmente, estima-se que cerca de 50 botos vivam no sistema lagunar de Laguna, mas apenas aproximadamente 22 participam ativamente da pesca cooperativa.

Reconhecimento nacional em fase final

O processo de registro da pesca com botos como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil entrou na reta final entre janeiro e fevereiro de 2026. O dossiê técnico foi elaborado em parceria com a UFSC, concluído em 2025, e aborda não apenas a técnica de pesca, mas também a relação afetiva entre pescadores e botos.

A proposta prevê o reconhecimento da tradição em Laguna e também nos municípios de Tramandaí e Imbé, no Rio Grande do Sul, onde práticas semelhantes ainda existem.

Novas ações de proteção em Santa Catarina

Em dezembro de 2025, o IMA lançou um novo ciclo do Plano de Ação Estadual (PAE) para a Conservação do Boto-Pescador, em reuniões realizadas na UDESC Laguna.

Entre as prioridades estão o combate às redes de emalhe, principais responsáveis por mortes acidentais de botos, e o monitoramento do tráfego de embarcações motorizadas. O ruído excessivo interfere na ecolocalização, mecanismo essencial para a caça dos golfinhos.

Retorno animador e desafios atuais

Pesquisadores também comemoraram, no início de 2026, o registro do retorno da pesca cooperativa no Rio Araranguá, após cerca de 20 anos de ausência. O fato reforça que a espécie pode recolonizar áreas onde há proteção ambiental e oferta de alimento.

Apesar dos avanços, dois desafios preocupam a comunidade: a redução dos estoques de tainha, influenciada por mudanças climáticas e pesca industrial, e a sucessão geracional, já que muitos jovens deixam a atividade pesqueira, ameaçando a continuidade do saber tradicional.

Mesmo diante das dificuldades, a pesca com botos segue como símbolo da identidade cultural de Laguna e um patrimônio natural que atrai pesquisadores e turistas do mundo inteiro.

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