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Protesto em canção

Em meio ao silêncio dos gigantes que se disseram acordados e voltaram a adormecer muito profundamente, escutei hoje pela manhã (ontem) mais uma vez o toque e o canto do ‘homem do paletó’. Este, há alguns anos, passa na frente do prédio onde moro com seu violão, seu boné amarelo, seu paletó surradíssimo, seu passo curtinho e rápido e tocando e cantando a sua única canção pelo que me parece…
 
Atravessa a rua sem parar de tocar, para na porta das lojas, ajeita a postura para parecer ainda mais elegante e ser totalmente simpático, fica tocando e cantando alguns segundos, até fazer uma pequena reverencia e ir para a porta da próxima loja.
 
Parei para pensar há quantos anos essa pessoa sai cedo de sua casa, se é que a tem, toma seu café, se é que pode, pega seu violão (que deve ter sido ganhado) e sai às ruas, provavelmente em itinerários diferentes, pois o da minha rua, o faz uma vez por semana, apenas para encantar.
 
Não protesta 20 centavos, Pec’s, médicos cubanos ou orçamentos estratosféricos de estádios.
 
Apenas encanta! Anos a fio, sem cansar, sem acomodar-se, sem ser aplaudido, fotografado, pintado ou mesmo filmado ou reconhecido. Sem reclamar de suas dores, amargores e falta de amores, sem acusar, julgar ou mesmo encontrar bodes expiatórios.
 
O ‘homem do paletó’ é o exemplo contrário do povo brasileiro: canta em tom a ser ouvido sem ensurdecer e não cala. Mesmo que um dia o seu corpo adormeça, eu e todos os encantados com a sua canção lembraremos seus acordes, suas palavras nem sempre entendíveis. E os acordes dos protestos de 2013, quem lembrará meus netos que existiram?
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