O pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, patrocinador do Palmeiras, expõe uma fragilidade cada vez mais comum no mercado brasileiro: crises de liquidez que nascem menos do caixa e mais da confiança. Ao acionar a Justiça para reorganizar cerca de R$ 4 bilhões em compromissos, a companhia afirma buscar fôlego para negociar sem deságio e preservar operações. O gatilho, porém, não foi uma queda abrupta de receitas, e sim um episódio ligado à tentativa de aquisição do Banco Master — interrompida após a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central do Brasil.
A cronologia importa. Um consórcio liderado por um dos sócios do grupo anunciou a compra; um dia depois, veio a decisão regulatória. A mensagem ao mercado foi ambígua: ainda que a proposta estivesse condicionada a aprovações, o ruído foi suficiente para acelerar saídas, congelar crédito e elevar a cautela de parceiros. Em mercados financeiros, a confiança se move mais rápido que os balanços — e, quando vira dúvida, transforma liquidez em um bem escasso.
A estratégia escolhida pela Fictor segue um roteiro conhecido: suspensão temporária de cobranças por 180 dias, negociação estruturada e continuidade operacional. Há um ponto relevante: as subsidiárias ficam fora do processo, preservando contratos e rotinas. É uma tentativa de isolar o “incêndio” na holding e evitar que ativos economicamente viáveis sejam penalizados pelo estigma da recuperação. Também chama atenção o ajuste prévio de estrutura e pessoal, feito antes do pedido, com a justificativa de proteger colaboradores e agilizar indenizações — um gesto que, além de humano, busca reduzir passivos e incertezas.
O caso deixa lições. A primeira é regulatória: anúncios de operações sensíveis, mesmo com condicionantes claras, carregam risco de interpretação quando o desfecho foge ao controle do proponente. A segunda é de governança: gestão de crises hoje exige resposta quase imediata, comunicação consistente e planos de contingência para o pior cenário. A terceira é sistêmica: reputação é ativo financeiro. Quando se deteriora, encarece capital, fecha portas e, em casos extremos, empurra empresas à recuperação mesmo sem falhas operacionais profundas.
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