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Seria um prazer conviver

Um casal desses corriqueiros e típicos do pós-modernidade: quase diariamente, dividem, mas não de todo, edredons, problemas e afagos. Batem-se à porta, em contramão. Ele sente um novo dia começando: – Será igual a todos os outros. 
Ela, por sua vez, calcula: – Tantas opções… Há homens disponíveis, quase postos em vitrines para escolha, precisaria de um carinhoso, sensível, atento a meus anseios. 
Ele, ao pensar na volta para casa, planeja: – Esta rosa há de relembrá-la do quanto é especial, ainda que não imagine o quanto é duro sobreviver às investidas das colegas de escritório. No reencontro, Laura, já com a flor na mão, desabituada com a sensibilidade do esposo, ataca: – Fez algo de errado, então me recompensa? Ele pondera, ainda que mentalmente: – Afinal, o que querem as mulheres? 
 
Os gêneros emoldurados na condição pós-moderna
Fato comprovado na ciência e na experiência do dia a dia é o modo distorcido como homens e mulheres percebem-se, notam-se. A forma como o homem enxerga a mulher, as suas dificuldades, o que ela admira, o que a atrai. E vice-versa. Superados os colóquios de Freud e suas histéricas, é quase global a pontuação feita por homens de diversas idades: a de que elas pensam muito. 
Abisma a forma como elas enxergam coisas que eles nem sequer repararam. Diante disso, considera-se a condição de mulheres que viveram no passado, mesmo nos recentes últimos dois séculos: viviam confinadas em um espaço reduzido, enquanto os homens, sempre habitando a vida pública, cercados de pessoas e informações, acabaram por não intuir detalhes percebidos pelas mulheres. A vida quase que enclausuradas e a rotina repetitiva fizeram a mulher sensível ao detalhe.
Há algo na mulher contemporânea que deixa os homens em pânico. Indigesto com sua crise de identidade diante da nova mulher, o sexo masculino, surpreendido, percebe-se alheio às razões do que decorre consigo.
Durante a maior parte da história, o homem esteve em lugar de destaque. Sua posição dentro da sociedade, em meios como política, família, lar era privilegiada. Diante da ascensão feminina, viu seu lugar nos melhores postos tornar-se perecível. A tão buscada liberdade feminina, adquirida com luta e vivida com glória, gerou uma crise na masculinidade. Tudo o que é masculino, não pode, essencialmente, ser feminino. O feminino, essencialmente, não pode ser masculino. Um choque de percepções buscando e confirmando identificação para a heterogeneidade dos gêneros, ainda que ambos se busquem ou se comprometam. 
A mulher, atualmente, sai do casamento por causa dela mesma, com autonomia de escolha entre ter ou não uma nova relação, enquanto o homem, geralmente, deixa a convivência por causa de outra mulher. E ambos, quando juntos, ao invés de permitirem-se, obrigam-se a desenvolturas incomuns, obsessivos pela eficácia, pela potência, levando relações baseadas no custo-benefício, sempre preocupados com a concorrência que está por toda parte.
Num mundo idealizado onde pessoas ideais parecem não fazer parte da vida real, as convivências dão existência a sementes que encaminham árvores com raízes podres, gerando a própria existência enquanto buscam solução para algo que o feminismo consequente sempre defendeu: uma humanidade universal de fato, na qual as mulheres estivessem incluídas, com direitos iguais e respeito mútuo entre os sexos, não uma guerra permanente entre eles.
Em relação às mulheres, essa dicotomia gerou, também, solidão, talvez o custo a pagar pela dita liberdade. Sem pressentir custos, a mulher buscou e ocupou seu papel na sociedade, e entre direitos e liberdade de expressão e escolhas, embolsou seu estatuto de independente, livre e guerreira. Justo. Em contraponto, a grande parte aspira por um pedido de casamento, um ato de cavalheirismo, de “amor à moda antiga”, fazendo confusão entre os valores das mulheres do passado com  os valores delas mesmas, que exterminaram o antigo sistema de organização social. Ora, a corrida feminista devidamente matou o amor como era vivido, um modo em prejuízo das mulheres, mas para além dos contratempos da nova forma de amar, homem e mulher, com a sua devida liberdade, somam-se. Se for compreendido que somar-se é real e completar é um ideal impraticável, será possível e bem provavelmente prazeroso conviver.
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