Na filosofia helenística, dois grupos discutiam o que era o bem supremo, como vivê-lo; como desfrutar a vida e de forma sábia. Propuseram caminhos distintos, aparentemente contraditórios. Creio que na verdade se complementam. Mas antes vamos conhecê-los.
Para os epicuristas, a felicidade e o bem supremo do homem consistem no prazer. Para Epicuro, o grande expoente deste grupo, o prazer é o princípio mais conatural em nós. O prazer é entendido como ausência de dor e não como satisfação das paixões corporais. Portanto, o prazer é o bem supremo, pois os homens e os animais procuram sempre o prazer e evitam a dor. Daí que a virtude, assim entendida, é o meio para se conseguir o maior prazer possível. Por exemplo, uma criança busca o seio e sente prazer ao ser amamentada. Quando lhe é retirado, chora, pois isso significa sofrimento. Assim, virtuoso é aquele que aproveita todo deleite com moderação e medida e que limita o seu desejo àqueles prazeres que não perturbam a alma. Por isso, fruir o máximo possível, sofrer o mínimo possível.
Para o movimento filosófico estóico, a felicidade era viver segundo a razão, ou conforme a natureza, o que seria, para eles, uma virtude. Ora, se é próprio do homem a razão, então a vida racional vale mais que a fruição. Não somos mais crianças que buscam o seio, somos adultos, assim, o esforço vale mais que o prazer. Portanto, esta vida racional conduz à virtude da apatia, ou seja, a anulação das paixões e superação da própria personalidade. As paixões são como que prisões que nos impedem de encontrar o sentido último da vida. Se o esforço vale mais que o prazer, é por isso que admiramos mais um herói que um bon-vivant.
Estas propostas nos colocam diante do dilema moralismo x hedonismo, vontade x volúpia, alegria do esforço x prazer do repouso. Após esta exposição breve, você deve estar dizendo “prefiro esta, àquela. Esta possui certas vantagens…”. Enfim, estas duas escolas moldaram a moral ocidental e têm seus reflexos, sobretudo, no cristianismo.
Sinceramente, acredito que estas escolas só se contradizem na teoria. Mas no homem elas encontram seu ponto de convergência, complementam-se como experiências. Por vezes, somos epicuristas, mas queremos ser estóicos e vice-versa. No ser humano, elas mais se complementam que se opõem. São os dois polos do viver, das relações que fazemos e mantemos.
A partir de nossas experiências, sabemos que o prazer é preferível ao sofrimento e que a virtude é mais agradável que o vício. Sabemos da necessidade da coragem diante da doença e a felicidade diante do todo. Mas você poderia objetar: e o amor? Pois bem, o que valeria o amor sem prazer e sem a coragem de lutar e acreditar?
Prazer e sofrimento nos acompanham. No nascer, sofremos ao deixar o útero, o alimento que nos sustenta, o calor que necessitamos na medida certa, a proteção da placenta. Mas sentimos prazer ao perceber que vivemos, que temos autonomia, que somos outra criatura que não nossa mãe. Sofremos de fome, mas temos prazer na saciedade. Sofremos porque não conseguimos alimentar nossa família, mas sentimos prazer pelo esforço do trabalho.
Positividade do prazer. Positividade do sofrimento. Que tristeza seria viver apenas para não sofrer. Mas não vivemos para sofrer; vivemos para viver, o que dá razão aos estóicos, mas também para nos regozijar, o que dá razão aos epicuristas. Neste mundo por vezes atroz, prazer de viver, coragem de viver.
Esforçamo-nos sempre para o prazer, o agradável. Buscamos sofrer o mínimo possível. Não é esse movimento, esse esforço que é a própria vida? Não é isso um prazer? Sponville, filósofo francês, nos lembra que querer viver é sempre e indissociavelmente querer fruir e regozijar, querer desenvolver seu ser, sua potência, sua liberdade, sua virtude – é querer viver bem. Por isso, o esforço de viver é a própria vida.
Este arco de tensão (sofrer e prazer) dá sentido para o nosso existir. Contudo, nem o prazer, nem o sofrer. O viver bem está em buscar o primeiro e evitar o segundo, mas nunca tê-los em fim, pois, como nos lembra Aristóteles, a virtude está no meio (virtus in medio).
