
Kalil de Oliveira
Braço do Norte
Em uma região (do Vale) na qual ocorreram seis dos 11 registros de suicídios na Amurel nos primeiros seis meses deste ano – segundo dados da Polícia Militar (PM) e do Instituto Médico Legal (IML) – três histórias de salvamento ganham destaque no Corpo de Bombeiros Militar de Braço do Norte. São soldados que se arriscaram para evitar que pessoas tirassem a própria vida e ampliassem essa estatística.
Em janeiro, em uma manhã de sábado, muitas pessoas aproveitavam o dia ensolarado para transitar pela região central de Tubarão. A cena seria comum, se não fosse um ‘detalhe’: uma mulher, de 60 anos, acabava de se jogar da ponte sobre o rio e agonizava no meio da correnteza.
O cabo Guilherme Mendes Martins, 25 anos, estava de folga com a família, passava pelo local, e percebeu a movimentação. Não pensou duas vezes: estacionou, tomou fôlego e usou todos os meios para o difícil resgate. “A guarnição foi muito rápida. A correnteza já estava levando a mulher quando a vi. Sem nadadeira, fiz muito esforço físico e estava exausto e, não fosse a chegada dos colegas, não sei se conseguiria segurar muito mais tempo. Eu estava na água e não levou seis minutos para a chegada dos bombeiros de Tubarão”, destaca o bombeiro de Braço do Norte que está há quatro anos em atividade.
Também em companhia da família e fora de seu horário de trabalho, no verão de fevereiro, dia ainda com bastante sol e agradável, quando o cabo Diego Fernando Garcia, 38 anos, cruzava a ponte sobre o rio do Braço do Norte, por volta das 19h30min, e se deparou com um jovem, de 22 anos, sentado com os pés para o lado de fora. “Ele disse que se jogaria. Chorava muito. Justificava que estava com problemas em um relacionamento afetivo e com a própria família”, explica o bombeiro, que, com a ajuda de um amigo, conseguiu segurar o rapaz. “Ele fazia força contrária com os pés na estrutura da ponte. Sozinho, eu teria caído com ele”.
Mais um final feliz
Em março, o sargento Antônio Jesus da Silveira atuou em um resgate bem tenso, também na Cidade do Vale. Com uma faca, um homem de 62 anos acabava de cortar uma veia do pescoço dentro do caminhão de uma empresa. Do outro lado, o bombeiro ainda tentava conversar. Já estava há três horas na ocorrência, até que convenceu o homem a abrir o vidro do veículo e aceitar um copo com água, que na verdade era calmante. “O homem me contou que tinha um dinheiro para receber da empresa. A intensão era de que, ao tirar a própria vida, a família seria indenizada”, explicou o soldado, que atualmente transferiu-se para a cidade de Seara, no meio oeste de Santa Catarina.
A cada suicídio, entre 6 a 10 pessoas são impactadas
Para a psicóloga Patrícia Pozza, colunista do Notisul, mais de 90 por cento dos casos de suicídio podem ser evitados. Parte da explicação das tragédias é biológica, ou seja, a vítima sofre de doenças mentais e emocionais, como a depressão. “Ao lado de esquizofrenia e da dependência química, a depressão é o principal fator que une as pessoas que encontram na morte a única saída. Há ainda outro grave problema junto ao autoextermínio: a cada suicídio, de seis a dez outras pessoas são diretamente impactadas. São familiares e amigos do suicida, que sofrem com o trauma desse sério problema”, explica. Patrícia é uma das articuladoras de uma mobilização pela abertura de um serviço especializado, o Centro de Valorização da Vida (CVV) em Tubarão. A entidade existe em todo o país e promove este ano o “Setembro Amarelo”, uma campanha preventiva.
Divulgar suicídio ajuda ou atrapalha?
A exposição de um suicídio na mídia é uma questão que divide os especialistas. Casos como as overdoses de pessoas famosas como Chorão e Amy Winehouse são apontados como estímulo, visto que houve o registro de tentativas de suicídio de fãs nas semanas seguintes. Em recente artigo no Observatório da Imprensa, a jornalista Vanessa Canciam opina que o problema está no sensacionalismo e não na notícia em si. Da mesma forma, a Organização Mundial de Saúde (OMS) admite, em relatório de setembro de 2014, que o tabu do tema na mídia atrasa o aparecimento de políticas públicas para o tratamento dos potenciais suicidas, bem como o conforto dos familiares que passaram pela experiência de perder um ente querido.
40
segundos é a frequência de suicídios no mundo, segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os dados são de 2014.É a taxa de suicídio do México entre jovens com 10 a 19 anos, a maior do mundo. No Brasil, nesta mesma faixa etária, morrem 2,3 jovens a cada 100 mil habitantes. A maior taxa no país fica entre os 45 e 49 anos, próxima de oito mortes para cada 100 mil habitantes.
23,3
É a taxa de suicídio do México entre jovens com 10 a 19 anos, a maior do mundo. No Brasil, nesta mesma faixa etária, morrem 2,3 jovens a cada 100 mil habitantes. A maior taxa no país fica entre os 45 e 49 anos, próxima de oito mortes para cada 100 mil habitantes.
Por onde andam?
Os bombeiros contam que não tiveram mais notícia das vítimas depois do salvamento. “A última vez que soube, a mulher estava internada no hospital, mas fora de perigo. O filho me procurou para agradecer”, disse o soldado Guilherme. “Eu encontrei o jovem no quartel outro dia. Está muito bem. Ele mora em Grão-Pará”, lembra o cabo Diego. O sargento Antônio reside em Seara.
O que é um ato de bravura?
Dos três bombeiros que participaram desta reportagem, apenas o cabo Guilherme conquistou um reconhecimento especial: a medalha de bravura da corporação. A escolha é estadual. Nasce de um processo em Florianópolis aberto a pedido do comandante. Se for aceito o ofício, sete oficiais julgam sobre os critérios, como os riscos pelos quais o bombeiro teve que enfrentar. Os bombeiros contam que receberam ainda diversos certificados e placas de legislativos municipais ou entidades de classe, ou clubes de serviço como Lions e Rotary Club.
Fique de olho!
• Dificuldade em lidar com a própria sexualidade ou conflito com os pais sobre esse tema
• Uso excessivo de álcool e outras drogas potencializam a prática de suicídio
• Crianças muito protegidas tendem a sofrer mais com desilusão amorosa quando adulto
• Quem menciona a vontade de sumir ou fazer uma viagem longa pode ser um futura suicida
• Sintomas: desinteresse por amigos, mudança de personalidade, irritabilidade, etc
• Dificuldade em dormir, pesadelos ou sono excessivo são sinais que podem ser suicidas
• Mudanças no padrão de alimentação, como a perda de apetite ou fome em excesso
Quando o emocional não está bom
• Procure o apoio da família. Conte com eles para todas as horas e fale o que está sentindo
• Evite se expor a pessoas de fora do seu círculo de amizades. Isso pode afetá-lo ainda mais
• A internet pode ser uma péssima fonte de consulta. Tem muita coisa boa, mas muita mentira
• O mais recomendado é a leitura de livros técnicos e conversa com especialistas